A AMBIENTAL LICENCIANDOS EM PEDAGOGIA SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UM ESTUDO NA UNIFAC/BOTUCATU
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES: O CURSO DE
PEDAGOGIA EM FOCO
Daniel Fernando Bovolenta Ovigli
Mestrando em Educação
pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e professor
efetivo junto à Prefeitura Municipal de Botucatu/SP. E-mail:
danielovigli@yahoo.com.br.
Fabiana Maria Ovigli
Especialista em Educação
Ambiental (USP/São Carlos). Professora efetiva junto à
Prefeitura Municipal de Botucatu e à Secretaria da Educação
do Estado de São Paulo. fabianaovigli@yahoo.com.br.
Andréa
Bogatti Guimarães Tomazela
Doutora
em Agronomia (Unesp/Botucatu). andreatomazela@gmail.com
Resumo: A
Educação Ambiental (EA) enquanto campo de pesquisa e
prática tem se ampliado consideravelmente, tanto em nível
nacional como mundial. Nesse contexto, entram em cena os trabalhos
que abordam a temática ambiental na formação
inicial do professor. Este trabalho vai ao encontro dessa
constatação, ao assumir como meta global o levantamento
e análise das percepções de licenciandos em
pedagogia sobre EA e a formação que tiveram durante o
curso para trabalhar com a referida temática. A amostra foi
composta por alunos matriculados no segundo e oitavo semestres do
curso de uma instituição privada do município de
Botucatu/SP. Utilizou-se um questionário como instrumento de
coleta de dados. A análise
dos dados é balizada pelas quatro correntes do pensamento
ambientalista descritas por Lago e Pádua (1989). Dentre os
principais resultados obtidos, destaca-se uma visão de EA
ainda bastante vinculada à Ecologia Social, particularmente
dentre os sujeitos matriculados no segundo semestre. Quanto
aos problemas ambientais mais evidenciados, percebe-se que são
desligados de uma reflexão mais ampla que contemple as
relações do ser humano com o meio ambiente, considerado
uma trama holística e integrada que abarca não apenas
determinantes concretos (lixo, desmatamento, poluição),
mas também componentes econômicos e políticos.
Algumas recomendações incluem a consolidação
de espaços formativos externos à instituição
de ensino superior, uma vez que estes podem permitir a vivência
de outras experiências que potencializam a formação
cidadã e ambiental.
Palavras-chave:
educação ambiental, formação inicial,
pedagogia.
1.
INTRODUÇÃO
1.1 Trajetórias da Educação
Ambiental (EA) nos diferentes níveis de ensino
A inserção da questão
ambiental em todos os níveis de ensino surge como uma
possibilidade produtiva de articulação entre
professores e alunos em situações de
ensino-aprendizagem, nas quais a problematização pode
ser desenvolvida mais facilmente, por envolver, de diferentes formas,
questões que perpassam o cotidiano individual e social
(OLIVEIRA et al., 2000).
Por meio da portaria 678, aprovada em
1991, o então Ministério da Educação e
Cultura (MEC) regulamentava que todos os níveis de ensino
deveriam abordar conceitos relativos à Educação
Ambiental. Um ano depois, em 1992, são instituídos os
Núcleos Estaduais de EA, que objetivavam o desenvolvimento de
atividades nessa área em âmbito formal e não
formal bem como a definição das necessidades e
regulamentações da EA em nível estadual
(FAGIONATO-RUFFINO, 2003).
Segundo a Política Nacional de
Educação Ambiental, a criação de
disciplinas voltadas aos aspectos metodológicos da Educação
Ambiental (EA) no ensino superior é facultada, o
que tem permitido experiências formativas em algumas
Instituições de Ensino Superior - IES (FREITAS et al,
2006).
Nesse contexto, o âmbito mais
restrito pelo qual pode ocorrer a inserção da dimensão
ambiental é a intervenção em uma disciplina,
podendo se estender para toda a grade curricular de um determinado
curso de graduação. Para Zuin e Freitas (2006, p. 1)
Também pode passar
pelos projetos de pesquisa e extensão e atingir toda a
instituição, desde a normatização já
existente até a gestão dos espaços nos quais
estejam incidindo atividades relacionadas às questões
sócio-ambientais ou mesmo dos espaços informais de
convivência universitária.
Quanto
à Educação Básica a
legislação vigente não permite a criação
de disciplinas de EA, havendo recomendação de que a
mesma seja incorporada transversalmente ao currículo, e é
desta maneira que a temática foi contemplada na elaboração
dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN.
Esse
documento apresenta como definição para tema
transversal uma problemática social que não chega a
constituir nova área, mas um tema que aparece permeando “a
concepção, os objetivos, os conteúdos e as
orientações didáticas de cada área, no
decorrer de toda a escolaridade obrigatória” (BRASIL,
1998, p. 48).
Mesmo considerando as críticas
realizadas ao processo que resultou na redação e
posterior distribuição dos Parâmetros para as
escolas de Educação Básica, alguns fatores
positivos para a EA no país vieram à tona. Por um lado,
deu-se visibilidade para experiências que já vinham
acontecendo; por outro, houve a emergência de diversas
iniciativas de inclusão da temática ambiental na escola
básica, gerando um aumento na demanda por formação
em EA, em grande medida na formação continuada ou, de
forma mais incipiente, na formação inicial de
professores (SORRENTINO, 2000).
1.2 A dimensão ambiental na
formação inicial do pedagogo
Como finalidades e propósitos
de trabalho com o tema transversal “Meio Ambiente” para
as séries iniciais destaca-se
(...) sua contribuição
para a formação de cidadãos conscientes, aptos
para decidirem e atuarem na realidade sócio-ambiental de um
modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da
sociedade, local e global. Para isso é necessário que,
mais do que informações e conceitos, a escola se
proponha a trabalhar com atitudes, com formação de
valores, com o ensino e a aprendizagem de habilidades e
procedimentos. E esse é um grande desafio para a educação.
Comportamentos “ambientalmente corretos” serão
aprendidos na prática do dia-a-dia na escola: gestos de
solidariedade, hábitos de higiene pessoal e dos diversos
ambientes, participação em pequenas negociações
podem ser exemplos disso (BRASIL, 1998, p. 20).
Como
entraves apontados à efetivação de mudanças
na prática escolar Oliveira e colaboradores destacam (2000, p.
1): (i) a idéia de que EA é tema somente para aulas de
Ciências e Biologia, (ii) ausência de recursos didáticos
e elevado número de alunos por sala, (iii) ênfase à
transmissão de informações, e (iv) políticas
institucionais que não confluem para ações
educativas centradas na mudança de atitudes e valores frente à
realidade.
Diante desse panorama a EA aparece
como possibilidade para participação de docentes e
estudantes em situações de ensino-aprendizagem em que
sejam discutidas questões ambientais, por estarem vinculadas
ao cotidiano e terem grande relevância social: “Esses
aspectos, aliados à recente incorporação da
temática como tema transversal nos Parâmetros
Curriculares Nacionais, impõem e tornam um desafio a busca de
alternativas formativas para profissionais atuarem na área”
(OLIVEIRA et al., 2000, p. 1).
A esse respeito, as Diretrizes
Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de Pedagogia (2006),
enfatizam que a formação do licenciado nessa área
deve proporcionar meios de investigação bem a como
aplicação de diferentes campos de conhecimento, tais
como “o filosófico, histórico, antropológico,
ambiental-ecológico,
psicológico, lingüístico, sociológico,
político, econômico, cultural” (p. 6, grifo
nosso). O objetivo de estudos empreendidos nessas áreas diz
respeito a nortear a observação, análise,
execução e avaliação do processo de
ensino-aprendizagem e de suas repercussões, assim como na
orientação “de práticas e gestão de
processos educativos escolares e não-escolares, além da
organização, funcionamento e avaliação de
sistemas e de estabelecimentos de ensino” (p. 6).
No mesmo documento, no tópico
“Organização Curricular do curso de Pedagogia”,
é destacada a “preservação do meio
ambiente articuladamente à da saúde e da vida, além
de outras questões de relevância local, regional,
nacional e até mesmo internacional” (p. 10).
Nesse sentido, o perfil do licenciado
em Pedagogia proposto pelas DCN ressalta que “os
processos de ensinar e de aprender dão-se em meios
ambiental-ecológicos,
em duplo sentido, isto é, tanto professoras(es) como
alunas(os) ensinam e aprendem, uns com os outros” (p. 8, grifo
nosso).
Portanto, uma perspectiva que tem
sido ampliada nos documentos oficiais para o curso de Pedagogia diz
respeito à importância da inserção da
dimensão ambiental ainda durante a formação
inicial. A Educação Ambiental no âmbito da
formação inicial de professores tem exigido uma ampla
reflexão sobre os cursos universitários e uma profunda
análise do processo de inserção da dimensão
ambiental nas práticas pedagógicas dos futuros
professores.
Diante
desse panorama algumas investigações têm mostrado
que
(...) os
professores das séries iniciais do Ensino Fundamental têm
apresentado uma formação, em geral, deficiente em
conteúdos específicos. Apesar da dedicação
desses profissionais, carecem de estudos sobre a presença de
atividades, projetos e ações sobre o tema meio ambiente
em suas práticas, bem como sobre a origem das informações
utilizadas por esses professores em sua atividade docente (MANZANO,
2003, p. 10).
Mello e Trivelato (1999, p. 2) também
ressaltam a importância dos educadores perceberem “que
carregam valores e concepções, e que sua atividade
docente expressa das mais diversas maneiras, consciente ou
inconscientemente, esses valores e concepções”.
Para Manzano (2003) toda ação
que se objetive enquadrar como Educação Ambiental deve
fundamentar-se na consciência acerca da problemática
ambiental resultante do atual modelo de desenvolvimento e que
congrega componentes de ordem ética, política,
economia, científica, tecnológica e cultural da
sociedade. Assim, empreender ações em EA também
possibilita a construção da cidadania e da democracia.
Reigota (1995, p. 11) apresenta a
Educação Ambiental como uma proposta de alteração
daquela que hoje conhecemos, não se limitando apenas à
transmissão de conhecimentos sobre ecologia e à
utilização racional dos recursos naturais, mas
principalmente à “participação dos
cidadãos nas decisões e discussões sobre a
questão ambiental”.
Nessa perspectiva de que a EA é
uma nova dimensão da Educação, a escola aparece
como local privilegiado, ou muito indicado para se discutir tal tema.
Penteado (2000) em seu trabalho “Meio Ambiente e Formação
de Professores” traz para a discussão das questões
ambientais, aspectos sócio-políticos.
Onde promover a
conjugação destes dois aspectos: compreensão das
questões ambientais enquanto questões sócio-políticas,
por intermédio da análise das Ciências Sociais e
a formação de uma consciência ambiental? A escola
é, sem sombra de dúvida, o local ideal para se promover
este processo. As disciplinas escolares são os recursos
didáticos através dos quais os conhecimentos
científicos de que a sociedade já dispõe são
colocados ao alcance dos alunos. As aulas são o espaço
ideal de trabalho com os conhecimentos e onde se desencadeiam
experiências e vivências formadoras de consciências
mais vigorosas porque alimentadas no saber (PENTEADO, 2000, p. 16).
Krasilchik, em trabalho publicado em
1986, destaca que para que a escola formal desenvolva programas de EA
algumas medidas devem ser tomadas, dentre elas fazer com que as
instituições que formam professores de todas as
disciplinas assumam a responsabilidade de preparar futuros docentes
para desenvolver programas de EA.
Penteado (2000) também destaca
a necessidade de o professor ter uma consciência ambiental com
“conhecimentos decorrentes de uma abordagem sócio-política
da questão”. A autora chama a atenção para
a necessidade de se analisar as questões relativas ao meio
ambiente também sob a ótica das ciências humanas,
que “são capazes de nos aproximar da compreensão
específica deste aspecto tão importante quanto
desconsiderado na atualidade”.
É importante ressaltar que para
a inserção da EA na escola, o currículo deverá
ser repensado. Está, na base na EA, uma prática
interdisciplinar que privilegie as relações tanto
quanto os fatos. Mais uma vez é importante destacar que a
atividade docente expressa, de diferentes formas, valores e
concepções do professor, o que também se estende
às suas práticas em EA.
1.3 Correntes do pensamento
ambientalista
A esse respeito convém
mencionar que a EA congrega diferentes conceitos atrelados a diversas
concepções filosóficas sobre questões
relativas ao meio ambiente expressando-se como distintas correntes do
pensamento ambientalista. Tais correntes influenciaram e influenciam
as práticas em EA, bem como os conteúdos a serem
selecionados e a abordagem dos mesmos no que tange às questões
ambientais. Essas correntes denominam-se Ecologia Natural, Ecologia
Social, Conservacionismo e Ecologismo (LAGO e PÁDUA, 1989). Um
quadro-síntese sobre tais pensamentos é mostrado
abaixo:
Tabela 1: SARIEGO, 1995, p. 45
|
|
Ecologia
Natural
|
Ecologia
Social
|
Conservacionismo
|
Ecologismo
|
|
Relação
Homem-Natureza
|
Harmônica,
ignorando os impactos ambientais
|
Provisoriamente
desarmônica, mas é possível compatibilizar o
desenvolvimento com a preservação por pequenos
ajustes
|
Desarmônica
por natureza pela incompatibilidade entre desenvolvimento e
preservação
|
Somente
será harmoniosa com uma mudança social substituindo
a civilização ocidental moderna por outra
|
|
Fundamentação
filosófica
|
Positivismo
|
Positivismo
e pragmatismo materialista
|
Racionalismo
panteísta
|
Marxismo
e pragmatismo
|
|
Tendência
pedagógica
|
Tradicional
ou tecnicista
|
Critico-social
dos conteúdos
|
Libertária
ou renovada não-diretiva
|
Libertadora
(não-formal) e renovada progressista (formal)
|
|
Conteúdos
|
Conceitos
científicos da Ecologia e seus níveis de organização
|
Conceitos
científicos de Ecologia, problemas ambientais e
desenvolvimento sustentado
|
Preservação
de áreas naturais e sua biodiversidade; atuação
de entidades ambientalistas
|
Ação
política, mobilização social, reciclagem,
fontes alternativas de energia
|
|
Praticas
pedagógicas preferenciais
|
Aula
expositiva e pesquisa científica de campo
|
Eclética,
com ênfase na aula expositiva
|
Estudo
do meio, excursão a áreas preservadas; atividades de
conscientização e denúncia
|
Prática
social através de: hortas comunitárias, coleta
seletiva, reciclagem, uso de sucatas e grupos de discussão
|
As problemáticas que vem sendo
tecidas até aqui são constantemente apresentadas quando
do estudo de questões relacionadas à EA e à
formação docente para o desenvolvimento do tema. No
Brasil, há mais de 20 anos trabalhos, teorias e práticas
vem se desenvolvendo, porém os problemas continuam, seja nos
grandes centros urbanos ou nas cidades do interior. Diante desse
panorama é que nos propusemos a investigar como tem ocorrido a
formação do pedagogo para lidar com questões
ambientais (particularmente no município de Botucatu/SP) bem
como suas visões acerca dessa problemática e a inclusão
da mesma nas séries iniciais da Educação Básica.
2.
MATERIAL E MÉTODOS
Este trabalho teve como objetivo geral
o levantamento e análise das percepções de
licenciandos em pedagogia sobre a educação ambiental em
sua formação inicial. Dentre os objetivos específicos,
destacam-se:
- a compreensão dos sujeitos
investigados acerca da inserção da questão
ambiental nas séries em que irão atuar;
- a formação que tiveram
para trabalhar com a questão ambiental;
- as percepções que os
sujeitos apresentam sobre a temática em questão.
Seu desenvolvimento se deu junto a uma
instituição privada de ensino superior localizada no
interior do estado de São Paulo. O curso de Pedagogia, objeto
da investigação aqui apresentada, foi criado em 1963, e
reconhecido pelo Decreto Federal nº. 61.107, de 28/07/67, sendo
responsável por parcela significativa dos recursos humanos
dessa área formados para atuar junto às escolas de
educação básica da região considerada,
nas funções de docência, gestão ou
supervisão. Em 2006 houve uma reestruturação
curricular do curso de Pedagogia, de modo a adequar-se às
diretrizes propostas pelo Ministério da Educação.
Sendo a docência a
base da formação oferecida, seus egressos recebem o
grau de Licenciados(as) em Pedagogia com o qual fazem jus a atuar
como docentes na Educação Infantil, nos anos iniciais
do Ensino Fundamental e em disciplinas dos cursos de nível
médio na modalidade Normal e de Educação
Profissional na área de serviços e apoio escolar e
outras em que disciplinas pedagógicas estejam previstas, no
planejamento, execução e avaliação de
programas e projetos pedagógicos e sistemas em unidades de
ensino e em ambientes não escolares (BRASIL, 2006, p. 10).
Os dados foram coletados por meio de
um questionário, obedecendo a critérios descritos por
Gil (2008). Quatro partes compuseram o instrumento de coleta de
dados, a saber: levantamento do perfil pessoal e profissional dos
sujeitos investigados (primeira parte), a compreensão dos
licenciandos sobre a questão ambiental e suas percepções
sobre as questões ambientais de seu entorno, no caso, o
município no qual o curso é ofertado (segunda e
terceira partes, respectivamente). A quarta e última parte
abarca as percepções dos sujeitos sobre a formação
que tiveram para trabalhar educação ambiental nas
séries em que irão atuar. O mecanismo de aplicação
do questionário envolveu o contato direto do pesquisador com o
informante (RICHARDSON, 2008).
3.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dentre
os 20 alunos que compõem a turma matriculada no segundo
semestre, 16 encontravam-se presentes quando da aplicação
do instrumento de coleta de dados. De modo geral, mostraram-se
bastante receptivos e dispostos a responder às questões.
O oitavo semestre possui 25 alunos regularmente matriculados, dos
quais 23 estavam presentes no dia da aplicação.
Notou-se maior atenção desta turma na leitura do
enunciado das questões, considerando o reduzido número
de respostas deixadas em branco.
3.1 Breve caracterização
dos sujeitos
Dentre os sujeitos que trabalham,
verifica-se que a modalidade Ensino Médio tradicional é
mais ocorrente (18 sujeitos) e o magistério foi cursado por
quatro sujeitos do 8º semestre. EJA e ensino
técnico-profissionalizante aparecem em menor quantidade (dois
e três sujeitos, respectivamente).
A totalidade dos sujeitos que não
trabalha é do sexo feminino e reside na cidade de Botucatu,
têm entre 18 e 20 anos (quatro sujeitos do 2º semestre) e
mais de 27 anos (dois estudantes do 2º semestre e dois do
oitavo) e completaram o Ensino Médio na modalidade tradicional
(cinco estudantes), magistério (um) e EJA (dois).
As profissões citadas foram
prioritariamente auxiliares de cozinha, escritório, auxiliar
de classe, balconista, carteiro e, inclusive, professor eventual.
Destaca-se o fato de que parte significativa dos alunos do oitavo
semestre (12 sujeitos) estão atuando em funções
pedagógicas, como auxiliar de classe, professor(a) e instrutor
de projeto Lego Education1,
demonstrando a inserção dos estudantes dessa turma na
área educacional.
3.2. Apontamentos
acerca das idéias
sobre ambiente expressas pelos sujeitos
A questão 1 da Parte
2 objetivou o levantamento
de idéias sobre meio ambiente dos graduandos em Pedagogia
considerando as quatro correntes do pensamento ambientalista
descritas por Lago e Pádua (1989), conforme mostra a Figura 1.

Figura 1: Correntes do pensamento
ambientalista
Verifica-se que grande parte dos
sujeitos assinalou a opção 2, denominada Ecologia
Social. Segundo Lago e Pádua (1989), essa corrente orienta-se
por uma concepção materialista e progressista. Para
estes autores nessa corrente predomina a idéia de que o
desenvolvimento científico e tecnológico possibilitará
um domínio consciente e sustentado do ambiente natural.
Nesse contexto, a Educação
Ambiental pautada nos conceitos de Ecologia Social pode ser
relacionada à pedagogia crítico-social dos conteúdos
(LIBÂNEO, 1986), que focaliza a teoria vinculada à
prática refletida do sujeito da aprendizagem sobre seu entorno
social.
Nessa componente do pensamento
ambiental a EA, além de descrever a natureza, também se
ocupa da denúncia às ações humanas
onerosas ao ambiente, incluindo alterações globais
provocadas pela ação humana (alguns exemplos incluem
efeito estufa e redução da camada de ozônio).
Em menor proporção, a
corrente 3, denominada Conservacionismo,
tem por pressupostos o não embasamento científico para
sua ação, tem como finalidade a
“conservação da natureza tal como o homem a
encontrou ao surgir na Terra” (SARIEGO, 1995).
“No
nosso século essa visão é reforçada
pelas contradições geradas ante o esgotamento da crença
positivista no progresso da Ciência como fator redentor da
humanidade. Mais do que nunca, os avanços tecnológicos
(energia nuclear, agrotóxicos, engenharia genética)
representam uma séria ameaça ao bem estar e
sobrevivência da humanidade” (SARIEGO, 1995, p.12).
A concepção pedagógica
inerente à corrente conservacionista é de cunho
libertário (LIBÂNEO, 1986). Essa vertente considera
secundários os conteúdos formais, cabendo ao professor
um papel de orientador de aprendizagens. Outra
vertente pedagógica do conservacionismo se apresenta na
tendência
renovada não-diretiva. Para Sariego (1995) essa pedagogia
(...)
reflete o descrédito pelo saber científico por
privilegiar a formação nos aspectos psicológicos,
o meio ambiente interno e mental. Tal como na tendência
libertária, os conteúdos formais, tão caros às
tendências tradicionalista e tecnicista, também são
considerados secundários e de valor apenas instrumental, já
que o principal é levar os alunos a procurarem os
conhecimentos por si mesmos. Também abarca as pedagogias ditas
"alternativas" de cunho humanista, como o método
logosófico e a pedagogia Waldorf. Em termos metodológicos,
essa tendência pedagógica utiliza as técnicas de
sensibilização, para o qual o contato e vivência
com os ambientes conservados desempenham importante papel. Do ponto
de vista prático são privilegiados os estudos do meio e
excursões, realizados principalmente em ambientes naturais
preservados
(p. 37).
3.3 Problemas ambientais mais
recorrentes no município
A
terceira parte do questionário objetivou, em linhas gerais, o
levantamento dos principais problemas ambientais do município
bem como algumas ações que poderiam ser empreendidas
minoração dos problemas ambientais mais citados
(questão 2).
“São os terrenos
vazios que acumulam lixos e provocam doenças”.
(aluna do 2º semestre)
“Usina de reciclagem do lixo,
esclarecimento para a população de locais para depósito
de pilhas e outros objetos de uso doméstico”.
(aluna do 8º semestre)
“Mais limpeza nas ruas e nas
praças”.
(aluna do 2º semestre)
A concepção
ambientalista voltada à Ecologia Social faz-se presente mais
uma vez, revelando por vezes a dissociação do ser
humano como sendo integrante do ambiente, considerando uma trama
holística e integrada que abarca não apenas
determinantes concretos (lixo, desmatamento, poluição),
mas também componentes econômicos e políticos e a
intervenção humana. Uma hipótese para a
freqüente ocorrência dessas respostas reside na realidade
imediata dos sujeitos investigados, considerando que as problemáticas
indicadas em suas considerações circulam freqüentemente
na mídia impressa e eletrônica e também por
observações que realizam cotidianamente. Nesse sentido,
questionar problemas ambientais também passa por questionar o
atual modelo de produção adotado, implícito nas
falas dos respondentes.
Um
grande número de sujeitos cita a limpeza da cidade como
principal problema, conforme elencado na análise acima
descrita. Percebe-se, no entanto, uma tendência a certo
deslocamento das respostas focadas predominantemente nas questões
relativas ao lixo para outras mais amplas, como a conscientização
da população.
3.4 Mapeando a formação
ambiental dos licenciandos
A
quarta parte do questionário contempla informações
referentes ao modo como os licenciandos pretendem abordar EA em sua
futura prática pedagógica. O recorte aqui apresentado
leva em consideração o tema apontado como mais
relevante para abordagem na futura prática pedagógica
do licenciando.

Figura 3: Problemas ambientais na
prática pedagógica em EA
As respostas obtidas junto a alunos
do oitavo semestre centram-se nos temas “água”,
“desmatamento” e “lixo”. Os estudantes do
segundo semestre apontaram, além dos dois primeiros temas
citados por seus colegas do oitavo semestre, a “preservação
do meio ambiente”, destacando todas as problemáticas
elencadas na questão.
Nas respostas de estudantes do oitavo
semestre percebe-se uma tendência a enfocar os métodos
de abordagem da temática ambiental que lançarão
mão em sua futura prática docente, conforme explicitado
nos excertos selecionados. Mais uma vez, destaca-se o fato de que
doze sujeitos já atuam na área educacional.
Tabela 6: Respostas à
questão 1
|
8º
semestre
|
|
“Sim.
De acordo com os conteúdos da apostila que trabalho,
durante todo ano”.
|
|
“Sim,
no dia-a-dia, mostrando a forma correta de separar o lixo, na
utilização da água...”
|
|
“Por
meio de projetos e visitas, enfocando a parte prática do
assunto”.
|
|
“Através
de exposição de cartazes em sala de aula, textos
sobre o assunto e passeios extra-classe”.
|
|
“Através
de projetos educacionais”.
|
|
“Sim,
da forma de orientar, fazer cartazes, poesias, desenhos de uma
maneira lúdica fica mais fácil a conscientização”.
|
|
“Através
de palestras, trabalhos em sala de aula, visitas monitoradas,
etc.”
|
|
“Em
forma de passeio e vídeos para que possam ver que somos
nós que acabamos como nosso ambiente”.
|
|
“Sim,
principalmente o lixo, separação seletiva e
colocação de lixo no dia certo da coleta”.
|
|
“Conscientizando
por meio de projetos, visitas, etc”.
|
|
“Partindo
de uma problemática presente no cotidiano dos alunos,
apresentado por eles mesmos”.
|
|
“Através
de teatros, músicas, brincadeiras, etc”.
|
Na questão 2 buscou-se
verificar as disciplinas nas quais conteúdos referentes à
educação ambiental seriam/foram abordados.
Há que se ressaltar o
oferecimento de uma disciplina intitulada “Educação
Ambiental” no sexto semestre do curso, apontada apenas pelos
alunos do oitavo semestre. A referida disciplina não é
mencionada pelos estudantes do segundo semestre, talvez por
desconhecerem a grade curricular do curso.
Tabela 7: Abordagem de EA nas
disciplinas do curso – 2º semestre (n=16)
|
Disciplinas
|
Porcentagem
de
respostas
|
|
Antropologia
|
12,5%
|
|
Sociologia
|
12,5%
|
|
Educação
Brasileira
|
6,25%
|
|
Filosofia
|
6,25%
|
|
Biologia
|
43,75%
|
|
Não
faz alusão à disciplina
|
6,25%
|
|
Não
respondeu
|
18,75%
|
Nas tabelas 7 e 8 verifica-se que a
somatória da porcentagem de respostas ultrapassa 100%
considerando que nessas questões lhes era facultado assinalar
mais de uma alternativa.
Tabela 8: Abordagem de EA nas
disciplinas do curso – 8º semestre (n=23)
|
Disciplinas
|
Porcentagem
de
respostas
|
|
Educação
Ambiental
|
91,3%
|
|
Conteúdos
e Metodologia de Ciências Naturais
|
8,7%
|
|
Geografia
|
4,35%
|
|
Biologia
|
8,7%
|
|
Não
faz alusão à disciplina
|
8,7%
|
A importância da EA na formação
do pedagogo pode ser expressa por algumas respostas, abaixo
transcritas:
“Sim, pois estamos em uma
época de exploração da natureza e não nos
conscientizamos que isso acarretará problemas futuros”.
(estudante do 2º
semestre)
“Sim, porque o pedagogo deve
abordar a parte ambiental como uma disciplina a ser dada”.
(estudante do 2º semestre)
“Sim, pois o educador deve
ser o mais completo possível, devido às exigências
atuais da sociedade”.
(estudante do 8º semestre)
“Sim, é muito
importante, porque o professor precisa incentivar e conscientizar
seus alunos e saber o que é e precisar seu meio ambiente”.
(estudante 8º semestre)
Chama a atenção o
número de sujeitos (sete, o que corresponde a 18% do total de
sujeitos) que responderam não pretender aperfeiçoar-se
na área de EA. Mais uma vez, ficou evidente que muitas
respostas apresentavam idéias simplistas sobre meio ambiente,
conforme já discutido acima, mesmo entre os alunos do oitavo
semestre, que já haviam passado por disciplinas que
contemplavam a temática ambiental (e muitos deles já
atuam na educação básica). Nesse contexto, não
basta simplesmente haver uma disciplina específica que aborde
a temática ambiental de modo meramente propedêutico. A
ausência de um vínculo com questões ambientais
mais amplas e a não-reflexão acerca da prática
pedagógica que envolve tais temáticas certamente
contribui para a visão superficial que os estudantes
apresentam. Além disso, a compartimentalização
disciplinar do currículo de formação de
professores reforça a ausência de diálogo da EA
com outras áreas, como a sociologia, a antropologia e a
história, disciplinas que também compõem o
currículo do curso: a visão fragmentada sobre meio
ambiente pode ter como uma das componentes esse modelo de organização
curricular, ainda vigente na maioria das instituições
de ensino superior.
4. CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Os
problemas ambientais estão presentes na vida da população.
Seja por atitudes impensadas ou por incompetência de
autoridades, a destruição do meio ambiente vem
aumentando consideravelmente nas últimas décadas, no
Brasil e no mundo. Tais problemas comprometem a qualidade de vida da
sociedade atual e poderão afetar ainda mais seriamente as
gerações futuras. A EA aparece como uma possibilidade
de melhoria dessa conjuntura visando à divulgação
da problemática ambiental em todos os contextos em que aparece
bem como a conscientização e mudança de atitudes
da população. E o professor da Educação
Básica tem um papel fundamental nesse processo. Nesse sentido,
a formação do pedagogo não deve prescindir de
discussões que contemplem a temática ambiental e sua
importância na constituição da cidadania, tão
preconizada pelas propostas curriculares estaduais e nacionais.
Percebe-se, entretanto, que as visões dos próprios
licenciandos apresentam um caráter por vezes simplista visto
que, na maioria das respostas, o meio ambiente é considerado
como sendo formado apenas por animais e vegetais, também vindo
à tona outras questões como lixo, reciclagem e
desmatamento. Poucas respostas evidenciam a necessidade de se pensar
o meio ambiente (e a EA) como uma inter-relação de
todos os componentes envolvidos, sejam eles bióticos ou
abióticos. Alguns desdobramentos futuros da investigação
aqui apresentada poderiam abordar como se processam, na sala de aula,
os discursos dos licenciandos. O professor leva para a sala de aula a
visão de mundo que tem e certamente essa visão também
se estende às idéias docentes sobre meio ambiente.
Entretanto
nosso estudo demonstrou que mesmo os espaços curriculares
limitados, como a implementação de uma disciplina de EA
pode e deve ser aproveitado para a inclusão da perspectiva
ambiental na formação do pedagogo, com todos os seus
desafios e obstáculos, mas que são perpassados por
mudanças, ainda que pequenas, nos licenciandos e licenciandas.
Algumas dessas mudanças mais evidentes e explicitadas ao
compararmos, por exemplo, as respostas dos alunos matriculados no
segundo semestre com a dos alunos matriculados no oitavo, que já
experienciaram uma disciplina de EA.
Estes
apontamentos mostram aproximações com o estudo de Zuin
(2007) sobre a inserção da dimensão ambiental no
curso de licenciatura em Química de uma IES também
situada no estado de São Paulo. Os alunos da disciplina
investigada pela autora “revelaram concepções que
colocam o homem como dominador da natureza” (p. 4) e, para
eles, a Educação Ambiental teria como papel a
transmissão de conhecimentos científicos acerca do
ambiente. Faz-se necessário considerar alguns movimentos,
ainda que incipientes, principalmente por parte dos discentes e
alguns docentes que compõem o quadro da instituição
investigada em nosso estudo, em direção à
inclusão da problemática sócio-ambiental no
curso de Pedagogia.
Algumas alternativas formativas em
Educação Ambiental para as IES incluem a consolidação
de espaços de ensino e aprendizagem externos à
universidade, uma vez que estes podem permitir a vivência de
outras experiências que potencializam a formação
cidadã e ambiental. Dessa forma, configura-se uma outra
abordagem de currículo de graduação, com a
inclusão de outros espaços de formação
científica e cidadã, com a gradativa inserção
da perspectiva da sustentabilidade.
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em www.anped.org.br/reunioes/30ra/posteres/GT22-2994--Int.pdf. Acesso
em 14/09/08.
NOTAS
1Trata-se
de um projeto implementado em escolas de Educação
Infantil e Ensino Fundamental que tem como objetivos o “aprender
fazendo e o desenvolvimento de competências e habilidades que
levem o educando a compreender o mundo e como as coisas funcionam”
(Folder
do Projeto Lego Education).