Expedições Científicas com Alunos de
uma Escola Rural: Educação Ambiental em Recursos Hídricos
Cristiano
Cunha Costa¹
Paulo
Sérgio Maroti²
¹Engenheiro
Florestal (UFS), Especialista em Educação Ambiental e Recursos Hídricos (USP),
Mestrando em Agroecossistemas (UFS). Email: criscunh@bol.com.br
² Prof. Adjunto/UFS/Campus
Prof. Alberto Carvalho/Itabaiana-SE. Email: dpsm@ufs.br
RESUMO
O estudo do meio é uma
forma de envolver alunos e professores em práticas de educação ambiental,
utilizando a percepção como ferramenta no sentido de entender como o ser humano
se vê no meio ambiente. Dessa forma, este estudo teve como objetivo estudar a
percepção de alunos da oitava série do ensino fundamental de uma escola rural,
usando a barragem do próprio povoado. Para isso, foram elaborados mapas mentais
(MM) da situação atual e da situação daqui dez anos, segundo a percepção dos
alunos, com seus respectivos comentários. Como situação atual, foram
representados landmarks mostrando o uso da água da barragem assim como o
lixo depositado devido às atividades de turismo e sua contaminação. Para dez anos,
foram representados landmarks associados à manutenção das
atividades de irrigação de culturas agrícolas e o consumo doméstico da
comunidade, mesmo com a água escura, com lixo e com peixes mortos pela
contaminação. Nos MM feitos pelos alunos, ficaram evidenciados a preocupação da
situação atual com relação ao futuro da barragem, relatando a necessidade de
atitudes voltadas para uma conservação e recuperação do corpo d’água local.
Palavras-chaves: percepção ambiental, landmarks
e mapas mentais.
1.
INTRODUÇÃO
O estudo do meio é definido
por PONTUSCHKA (1983) como uma metodologia em que alunos e professores são
colocados em situação de pesquisa e juntos analisam o espaço humanizado e
problematizam situações contatadas em busca de respostas, portanto professores
e alunos juntos produzem o conhecimento. Dessa forma, para THIOLLENT (2000), a
pesquisa-ação tem como ponto de partida a articulação entre a produção de conhecimentos
para a conscientização dos sujeitos e solução de problemas socialmente
significativos.
É nesse contexto que é
inserida a educação ambiental. Segundo REIGOTA (2002), trata-se de uma educação
que visa não só a utilização racional dos recursos naturais, mas basicamente a
participação dos cidadãos nas discussões e decisões sobre a temática ambiental.
SATO (2002) defende que a educação ambiental deve ser abordada como uma
dimensão que permeia todas as atividades escolares perpassando os demais diversos
setores de ação humana.
A educação
ambiental deve prover os meios de percepção e compreensão dos vários fatores
que interagem no tempo e no espaço para modelar o meio ambiente (DIAS, 2003).
Uma questão crucial para o sucesso dos programas de educação ambiental é a
adoção de ferramentas adequadas para que cada grupo atinja o nível esperado de
percepção ambiental (JACOBI et al., 2004).
Cada indivíduo percebe,
reage e responde diferentemente frente às ações sobre o meio. As respostas ou
manifestações são, portanto, resultado das percepções, dos processos
cognitivos, julgamentos e expectativas de cada indivíduo (FAGGIONATO, 2005).
Para HIGUCHI & AZEVEDO
(2004) as capacidades e experiências pessoais são formas de pensar que nos
fazem serem distintos uns dos outros, de modo que, diante de uma mesma
situação, cada pessoa tem uma experiência única de percepção, que contribui
para formar suas representações, idéias e concepções sobre o mundo.
2.
METODOLOGIA
2.1.
Caracterização da área de estudo
A Escola Municipal Profª.
Anailde Santos de Jesus está localizada no Povoado Cajaíba, zona rural do
município de Itabaiana, estado de Sergipe.
As atividades foram
realizadas com alunos da 8ª série, sendo que a barragem de mesmo nome do
Povoado foi utilizada como instrumento de estudo da percepção dos alunos.
Para o estudo da percepção
ambiental, foram entregues 2 folhas de papel branco (A4), sendo solicitado para
que fossem colocados os nomes e, em uma delas, fosse desenhado a situação atual
da barragem e no verso da folha, que o aluno comentasse o próprio desenho.
Com a segunda folha, foi
solicitado que os alunos imaginassem como estaria a barragem daqui a 10 anos e
representassem no papel. Em seguida, no verso da folha, comentassem sobre o
desenho. Os desenhos foram feitos com lápis de cor, tendo a liberdade para a
escolha das cores na confecção dos desenhos. Todos conhecem a barragem e
nenhuma informação lhes foi oferecida visando não influenciar nos desenhos.
BARRAZA (1999) propõe a
mesma metodologia para analisar a percepção sobre o ambiente de crianças com
idade escolar de 7 a 9 anos em uma escola do México (ambiente rural) e em uma
da Inglaterra (ambiente urbano). Os resultados observados foram de conhecimento
sobre a problemática ambiental representados nos desenhos para ambos os grupos
amostrados, mas diferiram nos resultados referente ao pessimismo quanto ao
futuro. As crianças de áreas urbanas (Inglaterra) são mais pessimistas,
enquanto que as crianças que residem e estudam em meio rural (México), portanto
mais próximas a natureza, tiveram representações muito mais otimistas
relacionado a um futuro próximo.
Para analisarmos os
desenhos ou mapas mentais utilizou-se o conceito dos landmarks ou marcos
conceituais simbólicos, denominados por Niemeyer (1994).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. Mapas mentais e a situação atual
da barragem
Nos desenhos, referindo-se
à situação atual da barragem, existem landmarks associando a barragem
com a agricultura uma vez que o povoado utiliza dessa água para a irrigação,
ficando evidente a importância/identidade que a mesma tem para a vida de cada
família mesmo que, de acordo com a percepção dos alunos, a água esteja poluída
(figura 01).


Figura 01.
Representação atual da Barragem. Mapas mentais dos alunos em que a água da
barragem é usada para irrigação.
Existem mapas mentais que
representam a sujeira e a contaminação da água da barragem onde se pode
verificar a presença de elementos adicionados ao ambiente pelo homem, como
garrafas, pneus e automóveis sendo lavados; além de pessoas usando das águas
para o banho e pescaria. Observa-se, também, a existência de peixes e animais.
A mata ciliar foi pouco destacada nos desenhos dos alunos. Tal fato pode se
dever ao não costume de ver mais corpos d’água com tais elementos da paisagem (Figura
02).


Figura 02.
Representação atual da Barragem. Mapa mental dos alunos segundo a percepção
deles com relação à qualidade da água da barragem.

Figura 03.
Representação atual da Barragem. Mapas mentais com landmarks associados
à atividades turísticas.
Já outros mapas mentais,
pode-se destacar os landmarks associados às atividades turísticas
desenvolvidas como meio de obtenção de renda, para a diversão de turistas e
pela própria comunidade e cidades vizinhas, sem qualquer preocupação com a
preservação do meio aquático (figura 03).
Um dos alunos destaca em
seu relato que:
“Isso acaba prejudicando
nossa saúde, porque a água que foi poluída, vai para as nossas casas,
plantações, etc. essa água é também transportada para a cidade de Itabaiana. Essa
água poluída, que nós bebemos é cheia de bactérias, é uma coisa horrível, a
água é tão ruim que a cor da água é amarelada com gosto de ferrugem e outras
coisas” (aluna M. V.) .
A mesma preocupação é
relatada por outro aluno quando fala que:
“ ...A água que está
chegando em nossas casas é de má qualidade e oferecendo riscos a nossa saúde” (
aluno W. dos S. C).
A água do açude
pode, às vezes, ser fonte de diversas doenças. As mais comuns são hepatite, a
amebíase e a esquistossomose, popularmente conhecida como xistosomose, ou
barriga d’água (MOLLE, 1992).
DORNELLES (2006) notou que
seus entrevistados desconhecem resultados da qualidade da água do rio
Monjolinho em São Carlos/SP. Essa falta de informação é preocupante, uma vez
que a população ribeirinha ainda pesca no rio Monjolinho ou usam suas águas
para a irrigação de hortaliças, representando um fator de risco adicional à
saúde.
Nas descrições
solicitadas, os alunos usam termos como: poluída, macabra, não tem aparência
agradável, não está em boas condições, estado muito ruim, muito suja, e não tem
aparência bonita, para descrever, nas suas visões, a respeito da condição atual
da barragem.
DORNELLES op. cit.,
ao estudar a percepção dos moradores da bacia hidrográfica do Monjolinho em São
Carlos/SP, notou nos entrevistados, mesmo nos mais jovens, uma preocupação com
o meio ambiente, sua valorização, sua conservação e os problemas existentes.
3.2. Mapas mentais e a percepção para
daqui dez anos
De acordo com os mapas
mentais da maioria dos alunos, pode-se observar landmarks da paisagem
destacando espaços de lazer, como bares associados à atividade turística e
tendo como conseqüência, a existência de resíduos sólidos no interior do corpo
d’água (pneus, garrafas) e a água representada com coloração escura e se pode
observar a ausência de mata ciliar (figura 04), como já destacado em outro mapa
mental.


Figura 04.
Representação da Barragem para dez anos. Mapas mentais referentes à atividade
turística praticada na barragem da Cajaíba.
Nos mapas mentais
elaborados para a próxima década, alguns elementos da paisagem ficam
destacados: a manutenção das atividades de irrigação de culturas agrícolas e
também o consumo doméstico da comunidade, mesmo com a água escura, com lixo e
com peixes mortos pela contaminação (figura 05). Tais representações são
consideradas de perfil pessimista para o corpo d’água.


Figura 05.
Representação da Barragem para dez anos. Mapas mentais confeccionados por
alunos com relação ao uso futuro da barragem.
Segundo um dos alunos:
“...a barragem se for indo
como irá, tá muito poluída, com água pouca, água escura e não mais será uma
área de lazer. Mas tudo isso por causa dos próprios banhistas, mas tomara que
melhore muito” (aluna M.).
Alguns mapas mentais
representam landmarks associados à seca da barragem, com a utilização de
réguas de medição e torneiras para representarem a gravidade do problema
(figura 06).


Figura 06.
Representação da Barragem para dez anos. Mapas mentais representando a barragem
seca daqui 10 anos.
Os mapas mentais definem
uma percepção pessimista para o corpo d’água segundo os alunos. Tal degradação
é representada pela coloração escura da água, poluição e contaminação, além da
presença de peixes mortos.
Para BARRAZA op. cit.,
os desenhos de crianças são ferramentas úteis provendo valiosa informação para
o estudo da percepção ambiental infantil, servindo, principalmente, como
indicadores emocionais para especificar problemas ambientais.
A análise da representação
gráfica não é suficiente. A fala sobre o desenho deve ser registrada. Essa
correlação proporciona a unidade do desenho e da fala, e é essa unidade que
torna possível a interpretação dos desenhos. Dessa maneira, a leitura dos
desenhos infantis, por parte do pesquisador, não pode perder de vista os
aspectos objetivos e subjetivos neles contidos (KOSMINSKY, 1998).
4. CONCLUSÃO
Cabe destacar que, a partir
dos dados obtidos nos mapas mentais denota-se que os alunos compreendem os
impactos ambientais e a relevante importância da Barragem Cajaíba para a
população do povoado estudado e cidades circunvizinhas. Evidencia-se a
preocupação da situação atual com relação ao futuro da barragem, relatando a
necessidade de atitudes voltadas para uma conservação e recuperação do corpo
d’água local.
O papel da educação
ambiental é possibilitar ao ser humano novas posturas ao lidar com o meio
ambiente, procurando adotar uma relação mais harmônica com os recursos naturais
e com a natureza. Assim, tal postura de integração e participação nas questões
ambientais deve propiciar a ação cidadã. Além disso, a educação ambiental
estimula a percepção necessária no sentido dos atores sociais envolvidos no
processo, sejam capazes de transformarem a atual situação ambiental existente.
5.
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
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1999.
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site: http://educar.sc.usp.br/biologia/textos/m_a_txt4.html, 2005. Acesso em: 25.mar.
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