Redescobrindo o valor da Biodiversidade
Moises dos Santos Viana
Pós-graduado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pelo Centro de Ensino Pesquisa e Extensão da Universidade
Estadula do Sudoeste da Bahia (UESB/Itapetinga)
Anapaula de Paula Cidade
Coelho
Pós-graduado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pelo Centro de Ensino Pesquisa e Extensão da Universidade
Estadula do Sudoeste da Bahia (UESB/Itapetinga)
Resumo
Com esse artigo pretendemos refletir o
que vem a ser a biodiversidade. Cogitar ainda seu sentido na importância
inter-relacional da vida, do planeta e do equilíbrio do meio ambiente. Em
seguida, refletimos sobre os desafios de conhecer as atitudes prejudiciais ao
meio ambiente na atual conjuntura ocidental e como conceber um valor à biodiversidade.
E já adiantamos em dizer: o valor da vida não pode ser entendido segundo os
preceitos mentais, econômicos e científicos humanos atuais. Biodiversidade é
vida e esta se encontra além da humanidade. A vida nos precede e nos supera.
Aqui chegamos pela evolução, mas não ficaremos. A vida na terra continuará sem
nossa presença, na sua dinâmica até o fim do sistema solar.
Palvras-Chave: Biodiversidade,
Ética,
Introdução
A grande dificuldade
particular de escrever um ensaio é sua introdução. Justamente as últimas
palavras escritas são as primeiras lidas. No entanto, elas têm uma missão
importante: captar o leitor. Por isso, a introdução é dificil.
Assim sendo, iniciamos o ensaio escrevendo a etimologia da palavra biodiversidade.
O Dicionário Aurélio informa: “(bio+diversidade) - a existência, numa dada
região, de uma grande variedade de espécies, ou de outras categorias
taxonômicas (como gêneros, etc.) de plantas ou de animais”. Desse modo, um
vocábulo é formado por duas outras palavras bio (vida) e diversitate (multiplicidade
de coisas diversas) que sejuntampara formar biodiversidade. Expressão
cientificamente enigmática e moralmente desafiadora para nós hoje.
A grande diversidade no
planeta nos impele a preocupemos com o esse assunto. Além disso, é preciso
entender o que é biodiversidade, sua questão e as formas de preservação
dos sistemas que mantém, promove e determina a vida no meio ambiente.
Uma questão de Biodiversidade
Por biodiversidade, podemos
entender uma estrutura que surge a partir das formas de interação entre
elementos de um sistema e as espécies que nela vivem. As causas evolutivas são
uma das respostas mais contundentes para explicá-la. Pois a evolução acontece
de forma a determinar a variação genética, e daí, uma outra variação: a
variação de número de população de uma espécie que cria a biodiversidade.
Número de especies y abundancias relativas de las mismas
encuentran su expresión en la diversidad. La noción de diversidad es antigua,
porque los naturalistas han reconocido y distinguido siempre comunidades pobres
en espécies, como las de las dunas o charcos efimeros , donde suelen existir
unas pocas especies dominantes, y comunidades ricas en especies, en las que
apenas se puede hablar de dominantes o especies por encima de las otras. El
arrecife de coral y el bosque tropical son ejemplos típicos de estas
comunidades muy diversas (MARGALEF, 2005, p. 359).
Na natureza há uma invariabilidade
muito grande de populações, comunidades e ambientes. Poucas espécies com muitos
indivíduos e uma imensidão de espécies complexas com número pequeno de
indivíduos. Um exemplo disso é a desproporção das populações dos ursos polares
em relação às da abelha apis. Cada espécie se adaptou numa evolução
complexa e criou especificidade com seu meio e com outras espécies numa
inter-relação ecológica que constrói a estrutura vital da biosfera:
Más que con la valencia ecológica de las especies, con el
resultado de la evolucion, o con las tasas potenciales de aumento, la
regularidad en la distribucion de números de individuos en especies asociadas
se ha de relacionar con interacciones específicas de los ecosistemas. La
diversidad es necesaria para el matenimiento de una estructura compleja
(MARGALEF, 2005, p. 366).
A biodiversidade proporciona
relações específicas, inter-relações orgânicas no ecossistema, estabelecendo
uma auto-regularidade ao planeta. Essa complexa relação é interessante, pois
ela pode variar, proporcionando maior ou menor índice de diversidade para o
equilíbrio. Todavia isso demora anos, milhões de anos. Poucas são as espécies
que conseguem ultrapassar essa variação.
Fósseis e
traços moleculares de linhagens evolutivas mostram que as espécies - somem
nascem e morrem - em escalas de tempo de 1 milhão de anos. (Exceções acontecem
durante os cinco eventos de extinção em massa que eliminaram dinossauros,
trilobitas e muitos outros). A extinção de todos os animais e plantas bem
conhecidos também é pouco natural. A causa são ações humanas, incluindo caça,
introdução de espécies exóticas (como ratos e ervas daninhas) e especialmente
destruição de habitats. (PIMM; JENKINS, 2005, p. 59 - 60)
Ao exarminarmos as eras
glaciais, por exemplo, podemos refletir sobre um dos fatores condicionais para
essa evolução. Desse modo, há um limite à diversidade, para que haja manutenção
das regularidades numéricas de relações entre espécies.
Una diversidad excessiva resulta incompatible con el mantenimiento
de uma organización, si esta organización es dinámica, es decir, si corresponde
a um estado estacionario en um haz de procesos que se influyen mutuamente
(MARGALEF, 2005, p. 366).
Qual é esse limite da
biodiversidade? Não sabemos! No entanto, é fàto que a ação humana está
desequilibrando esse processo, afetando efetivamente a auto-regularidade
planetar. Somos então interpelados em desenvolver meios, estudos e mecanismos
que proporcionem um conhecimento da biodiversidade do mundo e também
esforçarmos para entendermos sua dinâmica e ainda compreendermos qual o papel
interventor da humanidade nessa dinâmica: “Para que o meio ambiente possa ser
salvo é preciso que lapsos desse tipo — a demagogia, a precipitação, o
emocionalismo, a fàlta de profissionalismo — sejam corrigidos” (KLOETZEL, 1998,
p. 87). Assim sendo, a razão para conservar a biodiversidade é um valor que
interessa e força o envolvimento das pessoas. Principalmente para que
entendamos que não somos o centro do universo ou da vida. Somos parte dela,
devemos compreendê-la e valorizá-la.
Valor da Biodiversidade
Desse modo, preservar a
biodiversidade é uma questão ético-moral, pois a civilização humana causou
muitos estragos irreversíveis à natureza, à terra, às plantas e aos animais,
sem contar as outras espécies que conhecemos de modo tão limitado.
“Argumenta-se que as decisões que tomamos como espécie e como membros de uma
comunidade de alcance planetário determinarão, nas próximas décadas, as
viabilidade a longo prazo de nossa espécie e do planeta como um todo”
(HUTCHISON, 2000, p. 22).
Essa crise que atinge a
biodiversidade e a ameaça é uma crise ecológica sem precedentes para a vida no
planeta. Não sabemos a importância da biodiversidade e o que ela gerará ao
equilibrio do planeta, caso ela venha a fàltar ou a diminuir. No entanto, não
podemos justificar a biodiversidade como modo econômico ocidental. Porque as
questões econômicas não podem determinar as ações inter-relacionais da
humanidade com a natureza. Atribui-se
à biodiversidade valor econômico. Ou seja, o valor econômico como primordial
para preservação da vida. Baratear ações, preservar recursos são os argumentos
para fazer a vida continuar em sua amplitude e multiplicidade.
O outro
lado desta moeda é que a Natureza fornece serviços fundamentais, porém
subestimados. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio, recentemente divulgada,
apresenta uma longa lista: alimento, água doce, madeira para combustível,
plantas medicinais, variedades selvagens de produtos cultiváveis, prevenções de
enchentes e regulações climática, entre outros. (PIMM; JENKINS, 2005 p. 65)
Não se pode calcular o valor
da biodiversidade em padrões econômicos. Pois boa parte da crise relacionada a
questão da natureza se fàz pela mentalidade, pelo método sócio-econômico que a
civilização desenvolveu:
(...)
as
realidades econômicas dominantes de nossos tempos - desenvolvimento
tecnológico, consumismo, o tamanho crescente dos empreendimentos governamentais,
industriais e agrícolas, e o crescimento das populações — são responsáveis pela
maioria das perdas da biodiversidade biológica (EHRENFELD, 1997, p. 270).
A realidade econômica é a
responsável pelas perdas da diversidade biológica e a extinção de espécies
animais tem como causas principais a excessiva exploração e a perda do habitat
pelo desmatamento, a caça, o comércio desenfreado de espécies exóticas: “Sabe-se
que, a cada dia que passa, de cem, a duzentas espécies de planta ou animal
somem para sempre da superficie da Terra!” (KLOETZEL, 1998, p.28). Desse modo,
é preciso compreender o valor intrínseco da biodiversidade, sua complexidade e
importância no ecossistema. Ou seja, o calculo econômico está relacionado ao
ser humano, não ao ecossistema. A existência dabiodiversidade tem seu valor,
assim não podemos cumular valor econômico à biodiversidade, pois a economia em
suas atuais perspectivas dominantes, altamente direcionada e limitada, não
compreende ou encerra teoricamente o que é a biodiversidade.
O valor é uma parte intrínseca da biodiversidade; não
depende das propriedades das espécies em questão, dos usos que se farão ou não
de espécies em particular ou do seu alegado papel no equilíbrio dos
ecossistemas globais. Para a biodiversidade biológica o valor existe. Nenhuma
indústria de fundo de quintal é necessária para estimar este tipo de valor
(EHRENFELD, 1997, p. 270).
O nosso conhecimento acerca da
vida é muito limitado. Por mais avançados que estivermos nos estudos e
pesquisas, não é possível atribuir qualquer valor à biodiversidade em sua
particularidade ou em sua amplitude enquanto ecossistema. Dados infinitamente
complexos do que é a vida nos impedem de minimizarmos esse problema. Mas nos
desafia à nova mentalidade, pesquisa e ciência, fàzendo-nos buscar práticas
ecológicas saudáveis para toda a vida:
(...) primeiro, através do reconhecimento de que nós
somos uma parte interdependente do mundo natural; segundo, restringindo nosso
impacto destrutivo sobre os sistemas biológicos do planeta (HUTCHISON, 2000,
p.l76).
Fazendo com que compreendemos
a importância das vidas, do valor que elas têm para o equilíbrio do ecossistema
que todos nós pertencemos.
Os dinossauros e outras espécies que por milhões de anos habitaram o planeta
foram extintos e o planeta continua com a mesma ou até com mais biodiversidade
que há épocas antepassadas. A ação da humanidade deve levar em conta esta
dinâmica sistêmica e orgânica do planeta que sucede lentamente para uma
finalidade que hoje deslumbramos pela biodiversidade ameaçada pela humanidade:
La
evolución natural de los organismos sobre el planeta abarca uma larga cadena de
sucesión. Cuando la vida emergió del mar e inició la conquista de la porción
del planeta no cubierta por las aguas, encontró un ambiente muy inhóspito. La
superficie era de rocas sólidas desnudas o partículas rocosas que,
alternativamente, estaban húmedas por las lluvias y secas por la acción dcl sol.
Pasaron largos períodos antes deque la superficie se convertiera un suelo ,
sobre el que pudiera desarrollarse una vegetación exhuberante y una comunidad
animal de consideración (HOLDRIDGE, 1996, p. 55).
Essa lenta formação do planeta
e sua interconexão de espécies e meio que eles vivem formam um todo equilibrado
que está em decadência pela eliminação descriminada de espécies animais,
vegetais e outros tipos de vida pela poluição das águas, do ar e da terra. Por
isso, devemos saber dos efeitos humanos nessa sucessão ecológica que determinou
a biodiversidade, para compreender o papel humano no ecossistema
Saber Ambiental
Ao estudar sobre
biodiversidade e sua conservação encontramos e tiramos três lições mais
importantes: o desafio cientffico de saber e desenvolver métodos, conhecimento
e estudos sobre o tema; o posicionamento moral de respeitar o valor da
biodiversidade; e por conseqüência, a ação de mudar a situação em relação ser
humano e a vida. O que marca a ciência moderna é seu método empírico cartesiano.
Essa racionalidade se tornou prática técnico-cientffica que apoiou as
sucessivas revoluções industriais. Ela pautou as ações ocidentais por muitos
séculos e hoje apóia e sustenta a atual conjuntura econômica, gerando ideologia
e determinando os rumos da civilização. Por conseqüência, desenvolve ações
danosas ao meio ambiente, aos microorganismos, às plantas e aos animais da
Terra. No entanto, a mesma ciência evolui e hoje é desafiada a desenvolver
conhecimento e saber ambiental. Ir além do método cartesiano e desenvolver
métodos ecológicos, práticos e seguros para ajudar no entendimento da
biodiversidade e sua inter-relação com o todo da vida.
Os processos de destruição ecológica mais devastadores,
bem como a degradação socioambiental (perda de fertilidade dos solos, marginalização
social, desnutrição, pobreza e miséria extrema) têm sido resultado das práticas
inadequadas do uso do solo, que dependem de padrões tecnológicos e de um modelo
depredador de crescimento e que permitem maximinizar lucros econômicos no curto
prazo, revertendo seus custos sobre os sistemas naturais e sociais (LEFF, 2002,
p. 111).
Conhecer para preservar e
preservar para conhecer. Não é à-toa que o verbo cuidar vem do latim cogitare
que significa também pensar, raciocinar. Desse modo, buscar um valor da
biodiversidade implica num posicionamento moral de respeito. É imperativo ter
reverência, veneração à biodiversidade, sem atribuir um valor econômico ou algo
atribuído pelo humano para justificar a vida. A vida é um acontecimento que
desenvolve um senso de admiração, respeito e também temor. A ação de buscar
preservar a biodiversidade deve ir além do desejo de manter a vida humana. Cabe
a humanidade entender seu papel nesse tempo curto que estamos sobre a Terra.
Abreviar nossa estadia é no mínimo equívoco de nosso saber.
O saber ambiental emerge, assim, como uma consciência
crítica e avança com um propósito estratégico, transformando os conceitos e métodos
de uma constelação de disciplinas e construindo novosinstrumentos para implementar
programas de gestão ambiental (LEFF, 2002, p.111).
O conhecimento e o estudo da
biodiversidade sustentarão uma ética do cuidado, desenvolverão uma moral de
respeito ao valor da biodiversidade.
A qualidade de vida está necessariamente conectada com a
qualidade do ambiente, e a satisfação das necessidades básicas, com
aincorporação de um conjunto de normas ambientais para alcançar um
desenvolvimento equilibrado e sustentado (a conservação do potencial produtivo
dos ecossistemas, a preservação da base de recursos naturais, sustentabilidade
ecológica do habitat), mas também de formas inéditas de identidadede
cooperação, de solidariedade, departicipação e de realização, bem como de
satisfação de necessidades e aspirações por meio de novos processos de trabalho
(LEFF, 2002, p. 49).
Surge então uma nova
mentalidade biocentrica, onde a vida seja o valor mais importante. A espécie
humana passará, e a o planeta continuará em sua história até o fim desse
sistema solar.
Considerações finais
Portanto é imperativo novas
atitudes. Para que serve a biodiversidade? Qual o grau de biodiversidade
necessário para a manutenção da vida como um todo? Que importância temos na
manutenção da vida na terra? Perguntas amplas e contundentes que nos leva a
pensar em atitudes diferentes. Novas atitudes mundiais de organismos
supra-nacionais, de instituições públicas e governamentais, de ONGs e também de
cidadãos.
Como preservar o
meio-ambiente, os seres diversos que a compõe e o ser humano, a biodiversidade
humana? Atitudes, práticas e conscientização são passos iniciais que nascem nas
pesquisas e nos estudos da Biodiversidade e Conservação.
Referências
KLOETZEL, Kurt. O que é MeioAmbiente.
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1998.
EHRENFELD, David. Por que atribuir
um valor à Biodiversidade? In: WILSON, E. O. (org). Biodiversidade. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira,1997.
HUTCHISON, David. Educação
Ecológica: Idéias sobre consciência ambiental. Porto Alegre: Artmed, 2000.
HOLDRIDGE, Leslie R. Ecologia basada
en zonas de vida. San José, C. R. Instituto Interamericano de Cooperación
para la Agricultura, 1996. 216p.
LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental.
São Paulo: Cortez, 2002.
MARGALEF, Ramón. Ecologia. Barcelona: Ediciones
Omega, 2005.
PIMM,
Stuart L.; JENKINS, Clinton. Conservação da Biodiversidade. In: Scientific Americam Brasil.
São Paulo nº. 41. pp. 60-65. Outubro de 2005.