ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018DIVERSIDADE DE ANFÍBIOS ANUROS DA MATA ATLÂNTICA DE UMA LOCALIDADE NA ZONA OESTE DO RIO DE JANEIRO  
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UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO







DIVERSIDADE DE ANFÍBIOS ANUROS DA MATA ATLÂNTICA DE UMA LOCALIDADE NA ZONA OESTE DO RIO DE JANEIRO

Marcelo Corrêa dos Santos Batista1, Gabriel Limp Fiorentino2, Marcelo Soares3



1 – Graduando: Laboratório de Herpetologia, Centro de Estudos em Biologia – CEPBio, Universidade Castelo Branco – UCB (marcelokcsb@gmail.com);

2 – Mestrando: Programa de Pós-graduação em Biologia Animal, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ (gabriellimp@hotmail.com);

3 – Docente: Laboratório de Herpetologia, Centro de Estudos em Biologia – CEPBio, Universidade Castelo Branco – UCB (msoares@castelobranco.br).



RESUMO

O domínio da Mata Atlântica tornou-se reconhecido mundialmente por possuir uma elevada riqueza de espécies, considerado um hotspot para conservação da biodiversidade. As remanescentes de florestas atlânticas brasileiras atualmente encontram-se reduzidas a pequenas manchas de matas que se reunidas seu volume não ultrapassa os 8% da sua cobertura original. O município do Rio de Janeiro detém uma fauna de anfíbios significativa, principalmente áreas que encontram-se preservadas. O parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), constitui um importante ponto de referência de preservação dos vestígios restantes de Floresta Atlântica no município do Rio de Janeiro, é reconhecido como a maior floresta urbana do mundo, apresentando seus 12,5 mil hectares de área. O bioma da Mata Atlântica abriga mais de quatrocentas espécies de anfíbios anuros. A localidade do Rio da Prata é próxima ao Parque da Pedra Branca e de forma preliminar relacionamos neste estudo nove espécies de anfíbios anuros, seis famílias e oito gêneros.



Palavras chave: Anfíbios; Mata Atlântica; Rio da Prata; Rio de Janeiro.

ABSTRACT

The domain of the Atlantic Forest has become recognized worldwide for possessing a high species richness, considered a hotspot for biodiversity conservation. The remnants of Brazilian Atlantic forests are now reduced to small patches of forest, which, when combined, do not exceed 8% of their original cover. The municipality of Rio de Janeiro has a significant amphibian fauna, mainly areas that are preserved. The Pedra Branca State Park (PEPB) is an important reference point for the preservation of the remaining remains of the Atlantic Forest in the municipality of Rio de Janeiro. It is recognized as the largest urban forest in the world, presenting its 12,500 hectares . The Atlantic Forest biome houses more than four hundred species of anuran amphibians. The locality of the River of the Silver is next to the Park of the White Stone and of preliminary form we related in this study nine species of anuran amphibians, being six families and eight genera.

Keywords: Amphibians; Atlantic Forest; Rio da Prata; Rio de Janeiro.

Introdução

De acordo com MYERS et al., (2000) o domínio da Mata Atlântica tornou-se reconhecido mundialmente por possuir uma elevada riqueza de espécies, considerado um hotspot para conservação da biodiversidade. Segundo Moura et al., (2012) encontra-se localizado numa das regiões mais populosas do Brasil, o bioma em questão sofreu intensa perda de sua cobertura original, resultante principalmente da redução de habitats naturais, proporcionada por ações do homem ao longo das últimas décadas.

As remanescentes de florestas atlânticas brasileiras atualmente encontram-se totalmente devastadas. Ocupavam na sua época de descoberta uma continua faixa, estreita e grosseiramente paralela à costa iniciando-se no Rio Grande do Norte, e indo até o Rio Grande do Sul, elas atualmente apresentam-se reduzidas a pequenas manchas de matas que se reunidas seu volume não ultrapassa os 8% da sua cobertura original. Enquanto que no sul e sudeste que é onde se encontra uma parcela mais representativa do que restou, neste as dificuldades no acesso ao que restou imposta pelo relevo tem auxiliado no processo de frenagem da sua dissecação. E no norte, o relevo que pouco interfere por ser mais suave tem facilitado uma exploração intensiva e completamente desorganizada (RODRIGUES, 1990).

Segundo Heyer et al., (1994) o conhecimento sobre a composição dos grupos de vertebrados de uma área é fator de importância primordial em projetos para a sua conservação. Assim, a identificação das espécies de anfíbios e o estudo de suas particularidades ecológicas revelam-se decisivos para o sucesso das ações que buscam conservar a biodiversidade. Estes grupos são bastante conspícuos, o que viabiliza os estudos ecológicos e os levantamentos de biodiversidade. Além disso, os inventários herpetológicos oferecem uma visão macro da distribuição de um grande número de espécies, o que otimiza os esforços para a compreensão dos padrões de distribuição das espécies em função de diferentes variáveis ambientais (SILVANO & PIMENTA, 2003). Um enorme conjunto de dados relativos à riqueza, densidade e composição das comunidades de anfíbios pode ser reunido por meio de pesquisas rápidas com levantamentos bibliográficos e inventários em campo (HEYER et al., 1994).

Cintra et al., (2007) afirma que o município do Rio de Janeiro detém uma fauna de anfíbios significativa, principalmente áreas que se encontram preservadas. O parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), constitui um importante ponto de referência de preservação dos vestígios restantes de Floresta Atlântica no município do Rio de Janeiro. Tal parque é reconhecido como a maior floresta urbana do mundo, apresentando seus 12,5 mil hectares de área, onde encontramos o ponto mais alto do município do Rio de Janeiro, que atingi 1.024m acima do nível do mar. De acordo com Costa et al., (2009) as suas trilhas e seus atrativos ecoturísticos, que estão localizados em meio aos vestígios de Mata Atlântica apresentam um número de visitante cada vez maior.

Segundo Haddad et al., (2008) no processo de evolução dos seres vivos no nosso planeta, os animais da classe dos anfíbios foram os primeiros vertebrados a conquistar os ambientes terrestres, possivelmente durante o período geológico Devoniano, há cerca de 370 milhões de anos. Apesar do longo tempo de evolução, esses animais mantiveram sua grande dependência em relação aos ambientes aquáticos ou úmidos para sua sobrevivência e reprodução. O bioma da Mata Atlântica abriga mais de quatrocentas espécies de anfíbios anuros, e a maior riqueza quanto às espécies ocorre nos ambientes de florestas úmidas. Por dependerem de ambientes úmidos, os anfíbios dificilmente conseguem sobreviver em locais modificados pelo homem.

A classe Amphibia é composta atualmente por 6.347 espécies conhecidas às quais compreendem as ordens: Anura, Caudata e Gymnophiona. A ordem Anura engloba sapos, rãs e pererecas, os animais que não apresentam cauda em sua fase adulta. É a ordem com maior número de representantes, perfazendo, no momento, um total de 5.602 espécies, que habitam principalmente a região tropical. A anurofauna brasileira é uma das mais ricas do mundo. De acordo com a Sociedade Brasileira de Herpetologia, contamos com 804 espécies, o que representa em torno de 15% da fauna mundial (JARED & ANTONIAZZI, 2009).

A partir do trabalho de Izecksohn & Carvalho-e-Silva (2010) compreende-se três ordens viventes que compõem a classe Amphibia que são facilmente distinguidas: a) os Gymnophiona, conhecidos como “cobras-cegas”, não possuem patas com corpo longo e cilíndrico; b) os Urodela, “salamandras”, têm corpo alongado, com patas e cauda; e c) os Anura, “sapos”, “rãs” e “pererecas”, possuem corpo mais curto e patas, com as posteriores mais longas e adaptadas para o salto, e apresentam cauda apenas em sua fase larval. Os anuros são os únicos anfíbios que apresentam voz, que é utilizada principalmente pelos machos para atrair as fêmeas prontas para a reprodução. No Hemisfério Sul, os anuros formam os anfíbios com mais representantes, e o Brasil é muito rico em formas, com quase novecentas espécies já registradas.

Em seu trabalho Jared & Antoniazzi (2009) ressaltam que apesar de as cobras-cegas serem relativamente abundantes, são poucos os contatos por possuírem hábitos fossoriais. Sendo assim o maior contato que temos em termo de anfíbios são os anuros.

Atualmente todos os anfíbios adultos são carnívoros e, dentro de cada grupo, relativamente poucas especializações morfológicas estão associadas aos hábitos alimentares diferentes. Os anfíbios comem quase tudo que são capazes de capturar e engolir. Nas formas aquáticas, a língua é larga, achatada e relativamente imóvel, mas alguns anfíbios terrestres podem protrai-la para capturar presas para sua alimentação. O tamanho da cabeça é importante para determinar o tamanho máximo da presa que pode ser capturada, e espécies simpátricas de salamandras normalmente apresentam tamanhos de cabeça marcadamente diferentes, sugerindo que trata-se de uma característica que diminui a competição por comida (POUGH et al., 2008).

Segundo Izecksohn & Carvalho-e-Silva (2010) dos anfíbios anuros, a parcela mais importante do estudo, com seus hábitos franca e predominantemente noturnos a grande maioria, muitas vezes secretivos, outras apresentado exemplos acabados de estratégias, hábitos e colorido camuflantes, são às vezes de difícil observação. Por outro lado, suas emissões sonoras, dadas principalmente por seu canto nupcial, sempre preenchem de variados sons as noites, que acabam denunciando sua presença e atividade. Alie-se a isso que os anfíbios anuros apresentam os mais diversificados modos de reprodução conhecidos entre todos os vertebrados, além de ocuparem uma importante posição na teia alimentar. De um lado são grandes predadores de artrópodes, principalmente insetos, e mesmo de pequenos vertebrados, de outro, são presas de importância para a alimentação de mamíferos, aves, répteis e mesmo de outros anfíbios e até de artrópodes. O ciclo de vida, em geral constituído de uma larva aquática, denominado girino, e uma fase adulta exposta ao ar, torna os anfíbios anuros um dos grupos que mais são afetados pelas agressões ao meio ambiente, o que tem acarretado à extinção ou, pelo menos, ao desaparecimento de muitas espécies em determinadas regiões.

As modificações que são propiciadas pela crescente urbanização acabam resultando geralmente em uma redução significativa da diversidade original. O levantamento da fauna em parques e em áreas de vegetação remanescentes numa metrópole é um passo primordial para realizar a analise da diversidade atual em meio urbano. A análise da fauna atual pode nos propiciar subsídios para estimarmos a adaptabilidade às profundas modificações e prover assim medidas adequadas à conservação da diversidade remanescente (ESBÉRARD, 2009).

O presente trabalho teve por objetivo iniciar o inventário da fauna de anfíbios anuros do Rio da Prata, localidade em Campo Grande, no Rio de Janeiro, próxima ao Parque Estadual da Pedra Branca. Este estudo visa auxiliar as ações de gestão que buscam a conservação da biodiversidade do Parque Estadual da Pedra Branca, pois o conhecimento sobre a composição dos grupos de vertebrados de uma área é fator de importância primordial em projetos para a sua conservação.

Metodologia

Área de Estudo

O Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB) localiza-se, nos bairros de Campo Grande, Jacarepaguá, Taquara, Camorim, Vargem Pequena, Vargem Grande, Recreio dos Bandeirantes, Grumari, Padre Miguel, Bangu, Senador Camará, Jardim Sulacap, Realengo, Santíssimo, Senador Vasconcelos, Guaratiba e Barra de Guaratiba, município do Rio de Janeiro, abrange uma área total de 12.492 hectares CINTRA et al., (2007).

O PEPB é considerado a maior floresta urbana do mundo, portanto, abriga um grande contingente de espécies da fauna e flora, entretanto são poucos os trabalhos nesta região. Os trabalhos de campo foram realizados em Rio da Prata, Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro, localidade próxima ao Parque Estadual da Pedra Branca (ilustração 01). A região é um ponto de remanescente da Mata Atlântica, que sofreu intensa degradação devido às atividades agrícolas no passado, mas atualmente apresenta melhor estado de conservação devido há mudanças na legislação ambiental e maior fiscalização por parte das autoridades responsáveis, mas ainda há bolsões agrícolas.

Ilustração 01: Mapa demonstrando área de estudo próximo ao PEPB. Fonte: Google Earth.



Métodos de Amostragem

As excursões ao campo foram realizadas mensalmente completando o ciclo anual 2016/2017. Com 12 campanhas não periódicas, todas com duração de dois dias, que soma um total de 24 dias. Os trabalhos foram realizados através de busca ativa (ilustração 02) desde á tarde até o amanhecer, com o objetivo de alcançar o maior número de microhabitats possíveis. Sendo os pontos de observações clareiras, margem de riachos e poças d’água temporárias, que foram observados cuidadosamente. Os exemplares avistados foram fotografados, identificados e catalogados.

Resultados e Discussões

Foram registradas nove espécies de anfíbios anuros (tabela 1). As espécies identificadas pertencem a seis famílias distintas (ilustração 03), Hylodidae e Hylidae foram as famílias mais numerosa seguidas da família Bufonidae. A família Lepetodactylidae, aqui pouco representada, apresenta elevado número de espécies no Brasil, sendo uma família exclusiva da região Neotropical.

As espécies identificadas neste estudo contribuirão para o inventário da fauna de anfíbios anuros da região do Rio da Prata (ilustração 04), que é um ponto de remanescente da Mata Atlântica, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. De acordo com Izeckson & Carvalho-e-Silva (2010) a importância da criação e organização de uma lista contendo as espécies de anfíbios anuros que existem no município do Rio de Janeiro é enfatizada por outros pesquisadores desde 1946, que acrescentaram muito nesse contexto com trabalhos individuais.

Cintra et al., (2007) afirma que as projeções históricas do Rio de Janeiro demonstram que a Mata Atlântica cobria totalmente o estado com aproximadamente 97% de sua área. Com as intensas modificações no cenário do Rio de Janeiro com uso do solo nos 400-500 anos, a área original sofreu mudanças e sua Mata foi reduzida a 20%. A presença de espécies sensíveis às mudanças no ambiente nos proporciona uma melhor visão sobre o estado de conservação desta região da Mata Atlântica, que demonstra não possuir mudanças drásticas que possam de algum modo atingir o habitat destes animais, mesmo havendo o desmatamento para fins agrícolas como a monocultura de banana, caqui, milho, mandioca e murta.

Pelo fato dos anfíbios serem abundantes e funcionalmente importantes em muitos hábitats terrestres e aquáticos em regiões tropicais, subtropicais e temperadas, eles são componentes significantes da biota da Terra (SILVANO & PIMENTA, 2003). Várias espécies de anfíbios possuem ampla distribuição e potencialmente podem servir como espécies-chave para avaliar longas mudanças geográficas ou globais no ambiente. Outras espécies são especialistas de hábitat ou têm distribuição restrita, e podem acusar uma perturbação local (HEYER et al., 1994).

De acordo com Haddad et al., (2008) a Mata Atlântica é um bioma que abriga mais de quatrocentas espécies de anfíbios anuros, e a sua grande riqueza de espécies ocorre diretamente nos ambientes de florestas úmidas (Floresta Ombrófila Densa), dado pela sua dependência de água. A necessidade por água tem grande relação com seu modo reprodução (tabela 2), que na maioria das espécies tem pelo menos um dos estágios de desenvolvimento ligado diretamente com o meio aquático, com exceção para algumas espécies que possuem desenvolvimento direto como podemos ver na tabela 3, que descreve de forma breve os modos de reprodução de cada espécie.

No geral, as intervenções humanas levam a um empobrecimento da estrutura e da diversidade da vegetação (LIDDLE & SCORGIE, 1980). Tal mudança também altera o hábitat de diversas espécies animais, causando o desaparecimento de especialistas em favor de generalistas (VAN ROOY & STUMPEL, 1995). Os anfíbios anuros presentes na localidade do Rio da Prata apresentam diversidade no modo de reprodução e no habitat em que são encontrados (tabela 2), mesmo alguns tendo modificações devido à presença humana, tal diversidade torna-se um ponto importante para a preservação desta área a fim de preservar os anuros.