ISSN 1678-0701
Número 62, Ano XVI.
Dezembro/2017-Fevereiro/2018.
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28/01/2018REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS EM TORNO DA INTERDISCIPLINARIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA  
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REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS EM TORNO DA INTERDISCIPLINARIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Sofia Oliveira de Barros Correia, sofiabarroscorreia@gmail.com, Doutoranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFPE, Mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFS e Cientista Ambiental pela UFPE.

RESUMO

Serão abordados marcos teórico-metodológicos que permitiram o desenvolvimento dos discursos da interdisciplinaridade que estão nos espaços acadêmicos e extracientíficos. O objetivo é de apontar a necessidade de tratar as teorizações como discursos politicamente situados em contextos sociais de produção.

PALAVRAS-CHAVE: Reflexões Epistemológicas. Interdisciplinaridade. Análise do Discurso.

INTRODUÇÃO

Ao longo da história das ciências surgem discursos científicos e extracientíficos que permitiram o desenvolvimento e a disseminação dos discursos da interdisciplinaridade. Entendendo que este processo não se deu linearmente, num movimento de causa e consequência, mas foi tomando corpo ao longo do tempo e às custas do modelo do que se entende por ciências modernas ou Ciência Moderna, esta reflexão tem como lastro teórico o livro de Vasconcelos (2002), Complexidade e pesquisa interdisciplinar: epistemologia e metodologia operativa, portanto assume a concepção de epistemologia proposta pelo autor para fundamentar a discussão sobre discurso e interdisciplinaridade na produção do conhecimento científico.

Quando analisa, epistemologicamente, as práticas interdisciplinares e interparadigmáticas, ele situa sua discussão no paradigma da complexidade e enfatiza que não se trata de uma perspectiva homogeneizante ou carregada de um imperialismo epistemológico. Desta forma, o autor propõe que o conhecimento científico seja um conhecimento contextualizado, individuado e dependente da perspectiva e da subjetividade de quem o produz. Portanto, os trabalhos científicos devem ser explícitos no que concerne às escolhas teóricas, metodológicas e objetivos envolvidos no “fazer científico”.

Em contrapartida, a construção do conhecimento científico percorreu, predominantemente, um caminho que ocultou a dimensão subjetiva e inventiva da ciência e distanciou o pesquisador do seu objeto de pesquisa (a verdade, a natureza e o real), atribuindo aos fenômenos, cheios de ordem, repletos de perfeição, de regularidades, causas sobrenaturais ou causas apreensíveis, descritíveis, mensuráveis, reprodutíveis.

Em consonância com a concepção de Koyré (1982) de unidade do pensamento humano, acreditamos que não é possível dissociar a história do pensamento filosófico daquela do pensamento religioso, muito menos a evolução do pensamento científico das ideias transciêntificas, filosóficas, metafísicas e teológicas. E ainda:

O Zeitgeist não é uma fantasia. E se os "modernos" somos nós — e os que pensam mais ou menos como nós —, daí resulta que essa relatividade do moderno acarreta uma mudança de posição em relação aos "modernos" de outros períodos, instituições e problemas do passado. A história não é inalterável. (KOYRÉ, 1982, p.16).

No que tange ao imperativo da objetividade na produção dos conhecimentos científicos, Stengers (2002) se refere a Locke, Hume, Kant e Descartes como filósofos que legitimaram a prática obrigatória da objetividade científica. Objetividade esta que todo e qualquer cientista poderia alcançar, submetendo o mundo a seus instrumentos, leis, explicações e compartimentações do real. A ciência moderna possuía, então, o poder de desqualificar quaisquer conhecimentos que se opunham a suas verdades experimentais.

Adorno e Horkheimer, ao definir e discutir o conceito de teoria tradicional, levando em conta as diversas ciências (naturais, humanas, sociais, etc), analisam o conceito a-histórico de teoria, que tem suas bases no progresso técnico da idade burguesa e é produto de sua ideologia, um conhecimento que será aplicado. Portanto, Adorno e Horkheimer fundam sua crítica à teoria tradicional partindo da concepção de que a ciência é um constructo social e ideológico:

Os epistemólogos costumam neste caso recorrer a um conceito aparentemente imanente à sua ciência — o conceito de conveniência (Zweckmaessigkeit). Se é como novas são formuladas convenientemente, isto, na verdade, não depende só da simplicidade e da coerência do sistema, mas também, entre outras coisas, da direção e dos objetivos da pesquisa que não explica e não pode tornar nada inteligível por si mesma. Tanto quanto a influência do material sobre a teoria, a aplicação da teoria ao material não é apenas um processo intracientífico, mas também um processo social. (ADORNO e HORKHEIMER, 1975, p.130) .

Popper (2001) expôs as fragilidades das ciências positivistas, na sua obra A lógica da pesquisa científica, questionando a validade das suas hipóteses e sistemas teóricos universalistas “confirmados” empiricamente, estes representariam, para ele, singularidades e não uma verdade universal e absoluta. Questionou o princípio de indução, afirmando ser este um princípio superficial: “[...] a tentativa de alicerçar o princípio de indução na experiência malogra, pois conduz a uma regressão infinita” (p.29), de modo a ressignificar o real e as leis simplórias, probabilísticas, aproximativas e provisórias no fazer científico.

Bachelard (2006), em A epistemologia, defende uma ideia de conhecimento científico oriundo da evolução do espírito humano, e como tal: “[...] aceita as variações respeitantes à unidade e à perenidade do eu penso(p.64). Para o autor, essa consciência é tão clara que se torna inviável a ideia de uma filosofia do conhecimento científico cerrada em si mesma, seria preciso assumir o desconhecido. Esta concepção traz à tona um conhecimento científico resultante da criatividade e expressividade humanas, em dissonância ao modelo totalitário de ciência que “[...] julgando afastar qualquer preocupação filosófica, a ciência do século passado oferecia-se como um conhecimento homogêneo, como a ciência do nosso próprio mundo” (p.15).

Morin (1977), com a publicação de seu livro O método, adentra no debate sobre simplismo e homogeneização nas ciências, por meio das ideias de complexidade e de fenômenos complexos que implicariam em um conhecimento descontínuo, parcial, principalmente no que se refere aos sistemas de interação entre fenômenos, entre níveis epistemológicos ou entre níveis de organização dos mesmos.

Morin (2000) sugere que o conhecimento, para ser pertinente, quem o produz precisa seguir princípios como: a sua contextualização de produção, o estabelecimento das relações do todo com suas partes, o reconhecimento do caráter multidimensional do conhecimento e o enfrentamento do desafio que significa a complexidade para a produção científica. Desta forma, Morin afirma que o conhecimento alcançaria maior eficácia na solução de problemas diversos, aqueles que a ciência moderna não proporcionaria instrumentos suficientes de apropriação.

Santos, no seu livro Um discurso sobre as ciências, utilizando a ideia de paradigma e de que a ciência avança por meio de rupturas, crise e declínio de um paradigma que é substituído por outro, proposta por Kuhn (1970), defende a existência de uma crise do paradigma positivista das ciências. Esta crise veio acompanhada por uma profunda reflexão epistemológica que, no século XX, se expressa como uma necessidade de: “[...] complementarmos o conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das coisas, isto é, com o conhecimento de nós próprios” (SANTOS, 1995, p.30).

Capra (1982), em O ponto de mutação, emprega a ideia de paradigma científico de Kuhn (1970) para falar de um paradigma emergente, que substituirá aquele que tem como lastro a “ciência newtoniano-cartesiana” em crise, com seus métodos mecanicistas e reducionistas, e a produção de conhecimentos responsável por uma concepção de realidade composta por fragmentos dispersos entre si. Capra, por meio das ideias da física Moderna e Quântica, delineia este paradigma emergente, intitulado holístico e sistêmico, como um fenômeno que possibilitará que o planeta terra e seus processos sejam estudados e compreendidos como uma totalidade orgânica, com suas dimensões e processos interconectados, interdependentes, considerando o universo humano.

Em A teia da vida, Capra funda no paradigma emergente a Ecologia Profunda, que para ele trata-se de:

[...] uma nova compreensão científica da vida em todos os níveis dos sistemas vivos - organismos, sistemas sociais e ecossistemas. Baseia-se numa nova percepção da realidade, que tem profundas implicações não apenas para a ciência e para a filosofia, mas também para as atividades comerciais, a política, a assistência à saúde, a educação e a vida cotidiana (CAPRA, 1996, p.16).

Leff (2001) compreende a atual crise, que justifica o surgimento das discussões sobre ambiente ou meio ambiente, não como uma crise ecológica, mas, sobretudo, como uma crise da razão. A epistemologia ambiental é uma estratégia para se chegar a uma racionalidade ambiental, refletindo sobre as possibilidades e obstáculos diante da articulação das ciências, por meio da prática da interdisciplinaridade, para a compreensão do ambiente e para a concretização do desenvolvimento sustentável.

O autor enfatiza a importância das ciências na construção de uma nova racionalidade, já que elas reproduzem e legitimam, com grande força, a lógica do modo de produção capitalista (racionalidade econômica ou racionalidade contra a natureza). A consequência da reprodução dessa racionalidade é a apropriação da natureza como matéria prima para a produção irresponsável de bens de consumo.

O autor, em seu discurso, rompe com o projeto epistemológico que propõe uma articulação entre ciências com conceitos e teorias incompatíveis, e ainda, discorda daqueles teóricos que restringem a prática da interdisciplinaridade ao conhecimento científico. Este projeto proporcionaria, segundo Leff (2001) , uma ciência como produto da uniformidade e homogeneidade do saber. Leff argumenta que tal proposta, que também discute a prática da interdisciplinaridade e do desenvolvimento sustentável, segue a racionalidade econômica e é limitada por ela. Portanto, o autor acredita que só é possível uma transformação efetiva da humanidade e estabelecimento de um equilíbrio na relação homem x natureza quando se consolidar a racionalidade ambiental.

Leff (2001) se coloca a favor da diversidade, da diferença, da “outridade”, destacando a importância do conhecimento sobre os limites e história das ciências, os quais expõem a relação entre poder e saber. O autor defende uma pedagogia da complexidade ambiental que se faça reconhecer cada indivíduo e cada cultura como produtores e disseminadores de saber e de ser com a natureza. Tal pedagogia seria a prática de uma relação humana com a natureza de respeito ao que ele chama de o "ser da natureza" e da sua vida plena. A incerteza tão temida e negada pela ciência moderna, na pedagogia da complexidade ambiental, induziria à criatividade e à solidariedade entre os seres.

Esta discussão se fortalece quando considerada a dimensão ética da prática científica. Cruz e Corneli (2010), no seu artigo sobre a ética na ciência a partir da filosofia de Feyerabend, afirmam que o filósofo defendeu a imprescindível e legítima criação e reconhecimento de teorias que contrariam àquelas aceitas, além da elaboração de um novo sistema de conceitos, que sirva como um conjunto de pressupostos alternativos de crítica a determinadas teorias. O que Feyerabend denominou de princípio da proliferação e da tenacidade, tornaria a construção do conhecimento mais fluida, diversa e seus processos de elaboração e de aceitação menos autoritários. Cruz e Corneli (2010) argumentam que o conhecimento, visto como uma construção e não como descoberta, é discutido pelo filósofo como algo que pode ser utilizado para fins particulares, o que lesaria o interesse coletivo.

Logo, fatores que devem ser considerados, em relação à fragilidade da produção científica, são as influências ideológicas, partidárias, sindicais, governamentais, dentre outras relações de poder, que habitam a rotina do cientista e influenciarão nas decisões e nos rumos que ele irá tomar.

Em suma, Feyerabend compreendia que a ciência deveria ser encarada como uma entre várias tradições do conhecimento em uma sociedade a caminho do respeito às diferentes formas de conceber o mundo, em uma sociedade diversa, pronta para construção de suas múltiplas realidades.

Não se trata de negar o que foi feito no desenvolvimento das ciências modernas ou de negar os progressos científicos que a especialização produziu e sua importância para as ciências na atualidade, mas de reconhecer que suas abordagens e métodos de análise precisam ser revistos, remodelados e, até mesmo, abandonados, para avançarmos no desafio que é a construção de conhecimentos e de saberes para a convivência equilibrada ser humano-planeta Terra.

Então, o desejo destes cientistas aqui abordados que refletem sobre a epistemologia das ciências, com suas nuances ideológicas e discursivas, é de conduzir o conhecimento científico por um caminho de criticidade, de criatividade, lucidez e responsabilidade diante dos desafios da atualidade. Prigogine (2009, p.13) destina uma mensagem às próximas gerações: “As recentes ciências da complexidade negam o determinismo; insistem na criatividade em todos os níveis da natureza. O futuro não está dado”.

Entretanto, é preciso esclarecer que a subjetividade, a complexidade, a incerteza, como conceitos-dimensões, e as abordagens que surgem para abarcar os mesmos, como dito acima, não foram totalmente assumidos por todas as ciências e por seus ramos, nem mesmo as formas de abordagem assumem as mesmas conformações, pressupostos e finalidades. Na verdade, isso acontece de forma diversa, produzindo diversos discursos, nos limites das formalizações, das formações e das instituições científicas.

Vasconcelos (2002), que dá importância a esses conceitos-dimensões para “as práticas inter-“, defende que os obstáculos e limitações se expressam como conflitos e processos de poder no campo das profissões e de suas instituições, ele declara:

Assim, a proposta de práticas inter- convive na realidade com uma “sombra” espessa de um conjunto de estratégias de saber/ poder, de competição intra e intercorporativa e de processos institucionais e socioculturais muito fortes, que impõem barreiras profundas à troca de saberes e às práticas interprofissionais colaborativas e flexíveis (VASCONCELOS, 2002, 116).

A presente discussão epistemológica, não esgota elementos importantes para a compreensão do arcabouço teórico que sustenta a prática interdisciplinar nas ciências, mas representa parte do terreno fértil para que esta prática chegasse à legitimidade acadêmica que se tem hoje, não só no Brasil, mas no mundo.

Interdisciplinaridade como conceito, discurso, abordagem, método e prática

Diante de uma gama de estudiosos da interdisciplinaridade, da vastidão do tema, dos limites que nos impõe o contexto de formalização do processo de pesquisa e considerando a discussão anterior sobre interdisciplinaridade e produção do conhecimento, escolhemos Pombo (2003, 2005) e Vasconcelos (2002), para compor nossa discussão teórica sobre Interdisciplinaridade como conceito, discurso, método e prática. Com a intenção de realizarmos a discussão com certo nível de profundidade sobre os elementos teórico-metodológicos e éticos que sustentam a interdisciplinaridade na perspectiva dos estudiosos supracitados.

De acordo com Pombo (2003), a palavra interdisciplinaridade está “gasta”, por ser amplamente utilizada, em diversos contextos e, até mesmo, de forma despreocupada. Além de o termo vir acompanhado ou substituído por outras palavras, como multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, integração ou interconexão, entre outras, respectivamente.

Então, tomemos o mesmo caminho da estudiosa diante dos termos multi ou pluridisciplinar (segundo a autora são equivalentes), interdisciplinar e transdisciplinar. Estes termos se originam de uma mesma raiz, disciplina, e se diferenciam por possuir diversos prefixos, multi, inter e trans. Para a autora, existe um continum de sentido entre as palavras ou de dimensões em que se localizam.

Quando se fala em multi ou pluridisciplinaridade, o sentido é de estabelecer um paralelismo entre pontos de vista das diversas disciplinas. Já quando se trata da interdisciplinaridade, o pertinente é a transcendência da dimensão paralela e se concebe a complementaridade entre perspectivas. Entretanto, a transdisciplinaridade ultrapassa a dimensão da complementaridade e toca a fusão, uma perspectiva holística do conhecimento.

A autora enfatiza que não há uma hierarquia qualitativa neste continum, já que o termo interdisciplinaridade estaria acima dos demais na sua escala pessoal de valores. A interdisciplinaridade, segundo Pombo (2003), remete à cisão com o modelo analítico da ciência moderna, já discutido por nós em seção anterior, e que levou à especialização como prática científica.

Porém, a autora problematiza que a crítica à especialização veio, igualmente, de quem constrói o conhecimento científico. Portanto, a partir da década de setenta, se inicia um período em que: “Em termos institucionais, a fragmentação tende a aumentar mas, em termos conceptuais e em termos de pesquisa, há inúmeras actividades e inúmeras práticas que vão no sentido da interdisciplinaridade” ( POMBO, 2005,p.6).

Neste contexto, também surge uma diversidade de discursos em defesa da interdisciplinaridade e um movimento de reordenamento de disciplinas, além da elaboração de abordagens que dessem conta dessas novas práticas na produção científica e do reconhecimento de que todas as ciências investigam um só objeto: a realidade.

Pombo sugere um conceito: “[...] a interdisciplinaridade não é qualquer coisa que nós tenhamos que fazer. É qualquer coisa que se está a fazer quer nós queiramos ou não” (POMBO, 2005, p.10). Considerando que: “Podemos compreender este processo e, discursivamente, desenhar projectos que visam acompanhar esse movimento, ir ao encontro de uma realidade que se está a transformar, para além das nossas próprias vontades e dos nossos próprios projectos” (POMBO, 2005, p.10).

No que concerne à interdisciplinaridade como método, Pombo (2003) vê na interdisciplinaridade um potencial de funcionar como mecanismo regulatório de disciplinas e dos discursos que as compõem: “Neste sentido, a interdisciplinaridade recusaria tanto a planificação unitária quanto a dispersão anárquica, tanto a cegueira do especialista quanto a diluição das especificidades disciplinares numa indeterminação globalizante” (POMBO, 2005, p.9). Então, a interdisciplinaridade como método proporcionaria um caminho em que se está atento à criatividade, ao foco e à disciplina no fazer científico, à constante reflexão sobre o que se produz e sua pertinência e à abertura para a complexidade e sua riqueza potencial para a produção do conhecimento científico.

Por fim, quando define a interdisciplinaridade como prática, Pombo (2003) categoriza-as em: práticas de importação, práticas de cruzamento, práticas de convergência, “práticas de descentração” e práticas de comprometimento.

As práticas de importação desenvolvem-se no sentido de transcender os limites das disciplinas especializadas, “Há uma disciplina que faz uma espécie de cooptação do trabalho, das metodologias, das linguagens, das aparelhagens já provadas noutra disciplina” (POMBO, 2003, p.9).

Nas práticas de cruzamento, um problema extrapolado por uma determinada disciplina requer o cruzamento desta com as demais disciplinas para sua solução.

Já nas práticas de convergência, o que acontece é a convergência de perspectivas diversas que deem conta de um objeto comum entre elas.

As “práticas de descentração” ocorrem quando os problemas em estudo não possuem soluções na perspectiva das disciplinas tradicionais, como a questão ambiental. Acontece um “policentrismo” de disciplinas que gerarão o avanço científico.

Em tom de conclusão, as práticas de comprometimento são aquelas que tentam compreender questões que parecem estar além da capacidade cognitiva humana, o que não quer dizer que não se possa pensar sobre.

Vasconcelos (2002) discute a interdisciplinaridade sob o paradigma da complexidade, definindo e elencando conceitos básicos relacionados e sugerindo uma tipologia de práticas da interdisciplinaridade. Ao longo de seu livro ele trata a interdisciplinaridade como abordagem e método para pesquisas complexas e interdisciplinares, além de detalhar caminhos e possibilidades para se realizar tais pesquisas.

Vasconcelos afirma que a tese que permeia a sua discussão sobre pós-modernidade, complexidade e sobre as estratégias epistemológicas para práticas interdisciplinares e interparadigmáticas, é a de que no contexto de fortalecimento das sociedades capitalistas e do pós-modernismo:

[...] os conceitos e estratégias epistemológicos de complexidade e de interdisciplinaridade devem constituir valores explícitos da teoria crítica e da agenda das lutas emancipatórias, antiopressivas, de caráter popular-democrático e por uma globalização mais solidária, no sentido de evitar não só a fragmentação das ciências instrumentais e a crise dos paradigmas totalizantes de cunho modernista, mas também a dispersão micropolítica das abordagens pós-modernas (VASCONCELOS, 2002, p.37).

O autor identifica que a interdisciplinaridade pode ser compreendida de forma equivocada, associada a um sentido de “ecletismo teórico”. Isto se vincularia a um debate de cunho teórico-político e epistemológico a ser esclarecido. O autor considera este ecletismo como o uso indiscriminado de teorias e pontos de vista, muitas vezes incompatíveis no que se refere aos pressupostos epistemológicos, teórico-metodológicos, conceitos e contextos históricos de produção dos mesmos, o que ocultaria a dimensão discursiva em torno do termo interdisciplinaridade. Já o pluralismo a que se refere o autor, que é confundido com o ecletismo, significa o respeito ao que foi feito por outros e a exposição de nossa posição diante daquilo que produzimos.

Vasconcelos afirma que o termo interdisciplinaridade reduz o fenômeno e as possibilidades de novas estratégias de produção e prática do conhecimento. Quando discutidas as noções de disciplina e interdisciplinaridade, de forma divergente a de Pombo (2003), o autor argumenta que não devem ser consideradas somente as fronteiras entre as disciplinas, mas também entre paradigmas, campos epistemológicos, teorias, profissões e “campos saber-fazer”. Desta forma, seriam admissíveis o uso de termos interparadigmático, interteórico, etc., para se referir à interação entre as diversas fronteiras do saber, o que o autor denomina de práticas inter- (VASCONCELOS, 2002, p. 108-114).

Os tipos de “práticas inter-” são definidas pelo autor como: práticas multi-, práticas pluri-, práticas pluri-auxiliares, práticas inter-, Campos trans-:

As práticas multi- são constituídas pela organização de uma gama de campos de saber, sem o estabelecimento de relações entre eles, ou seja, não há cooperação entre estes campos.

As práticas pluri- são aquelas que surgem da justaposição de diversos campos do saber, em um mesmo nível hierárquico de produção e relacionados entre si. De forma que haja cooperação entre campos, mas sem coordenação entre os mesmos.

As práticas pluri-auxiliares são aquelas compostas por “contribuições de um ou mais campos do saber para o domínio de um deles já existente, que se posiciona como campo receptor e coordenador dos demais” (VASCONCELOS, 2002, p.112).

As práticas inter- são práticas de interação participativa entre campos conexos do saber, conduzidas por uma finalidade superior que faz redefinir os elementos dos campos originais. Os campos são hierarquicamente definidos e coordenados por uma relação horizontal de poder.

Por fim, os Campos trans-, são campos que funcionam por meio de uma coordenação entre zonas de interação, de médio e longo prazo, que relacionam campos de saberes individuais e inter- de um campo do saber mais amplo, com tendência a uma autonomia teórica e operativa.

Inseridos em contextos diferentes de produção do conhecimento, Pombo e Vasconcelos propõem noções diferentes de interdisciplinaridade, no que se refere à definição propriamente dita do termo e à abordagem sobre as práticas da interdisciplinaridade. Porém, os autores convergem quando inserem a discussão em um contexto mundial da produção científica sobre interdisciplinaridade.

Concluímos que, ambos tratam a interdisciplinaridade como um princípio norteador das atividades científicas e acadêmicas, como uma prática pertinente para o avanço científico e ético, porém, os mesmos tomam caminhos divergentes para se chegar a um lugar comum. Cabe ao pesquisador escolher o caminho discursivo que lhe favorecerá o desenvolvimento de uma pesquisa devidamente coerente com o seu contexto de produção, com seus princípios (da ordem que for), de seus pressupostos teórico-metodológicos e, por fim, dos objetivos que pretende contemplar, para que o conhecimento a ser produzido seja pertinente (MORIN, 2000).

Análise do discurso e interdisciplinaridade

A linguagem pode ser concebida, primeiramente, como uma estratégia de sobrevivência. Transcendendo a dimensão instintiva humana, a linguagem passa a ser um canal de expressão das emoções, além de um caminho para a comunicação, para o conhecimento e para a organização político-social da humanidade.

De acordo com Fiorin (2008), a linguagem, por essa relevância na vida humana, se tornou objeto de vários campos científicos. De acordo com o autor, a Análise do Discurso, além de estudar a linguagem e a língua por meio da linguística, investiga o texto e o discurso, dialogando com a dialética, com a retórica, com a teoria da literatura e com a história.

Orlandi (1999, p.15) analisa as dimensões discursivas: “E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”.

Assim como na reflexão epistemológica sobre a interdisciplinaridade, o surgimento da Análise do Discurso pode ser compreendido sob a noção de avanço científico como um processo descontínuo, constituído por rupturas ou pelo surgimento de novas perspectivas diante do objeto de estudo, o discurso, sobretudo nas ciências humanas e sociais.

Constituída por uma diversidade de enfoques, a Análise de Discurso se deu como uma nova perspectiva sobre a linguagem, um redimensionamento de seu objeto e como uma alternativa de análise divergente à Análise de Conteúdo (ROCHA; DEUSDARÁ, 2005).

O ponto de partida da Análise de Discurso, segundo Rocha e Deusdará (2005), são as implicações do pesquisador no “fazer científico”. Para os autores, a perspectiva discursiva tenta transcender a uma concepção essencialista do discurso, ou seja, a ideia de que o discurso revelaria uma verdade oculta nas produções de linguagem.

Assumindo o materialismo histórico e, consequentemente, o método dialético de análise do objeto de estudo, no que tange aos pressupostos teóricos-metodológicos da Análise de Discurso, Rocha e Deusdará (2005) afirmam a necessidade de ancorar sócio- historicamente o que Pêcheux chama de “imagens discursivas” e do reconhecimento do campo ideológico como um elemento constituinte da linguagem, bem como, do reconhecimento da existência de um sujeito de limitada autonomia diante dos sentidos que produz e reproduz.

Em contrapartida, de acordo com os autores, a linguagem não pode ser compreendida como uma reação a algo que lhe é exterior, ela é produzida nas interações sociais situadas historicamente e não se dissocia destas, daí a materialidade do discurso, um acontecimento com sua historicidade. Os autores complementam esta ideia argumentando que, àquele que estuda o discurso, é pertinente a compreensão de que a linguagem é uma forma de intervenção social e de construção de saberes sobre o real, que não é dado, é constructo social. Portanto, a compreensão da linguagem como uma intervenção e construção do real exige o diálogo com outras perspectivas sobre o mesmo, ou seja, a Análise do Discurso se configura como uma atividade interdisciplinar. Desta forma, é preponderante, nesta perspectiva, a articulação das dimensões que permeiam o discurso: inconsciente, sentidos, memória, ideologia, língua, história, condições de produção, etc. (ORLANDI, 1999).

Quanto à análise dos discursos da interdisciplinaridade, se considerada a explicitação da postura do pesquisador diante da sua atividade interdisciplinar, a que Vasconcelos (2002) se refere como preponderante: a Análise de Discurso de Pêcheux (2008), além de favorecer na discussão sobre a prática interdisciplinar por trazer uma reflexão sobre as disciplinas, que o autor denomina de “disciplinas de interpretação do real”, contribuirá com a compreensão da relação sujeito-objeto de pesquisa, já que concebe a pesquisa como uma interferência de quem a realiza em um dado contexto histórico e sócio-político:

E é neste ponto que se encontra a questão das disciplinas de interpretação: é porque há o outro nas sociedades e na história, correspondente a esse outro próprio ao linguajeiro discursivo, que aí pode haver ligação, identificação ou transferência, isto é, existência de uma relação abrindo a possibilidade de interpretar. E é porque há essa ligação que as filiações históricas podem-se organizar em memórias, e as relações sociais em rédea de significantes (PÊCHEUX, 2008, p.55).

Ademais, a Análise de Discurso favorece na compreensão estrutural da pesquisa, elencando e relacionando princípios e pressupostos teórico-metodológicos, processos e produtos da pesquisa e suas possíveis implicações sociais. Neste processo, é possível identificar incoerências, consistência e inovações no discurso que se constrói ao longo de um texto dissertativo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O olhar crítico sobre as ciências é encarado, neste trabalho, como algo inerente e pertinente para a produção do conhecimento científico, assim como para a reflexão, compreensão e prática da interdisciplinaridade, já que esta repercute sobre as formas de conceber, construir e desconstruir este tipo de conhecimento, assim como nas ações que vêm como movimento coerente: pensamento-ação.

A perspectiva discursiva de Pêcheux e as contribuições de Orlandi sobre a interdisciplinaridade nas ciências, constituem-se como aprofundamentos reflexivos sobre a construção do conhecimento científico como produção de processos discursivos, enriquecendo o debate epistemológico em torno da mesma, com a consideração das dimensões subjetivas do cientista, assim como das dimensões socioculturais de produção dos discursos. Desta forma, as possibilidades de ecletismo teórico, denunciadas por Vasconcelos (2002), que enfraquecem os discursos da interdisciplinaridade, seriam atenuadas.

A prática da interdisciplinaridade está intimamente ligada aos discursos que à sustenta, se este discurso não está bem fundamentado e coerente com princípios eleitos por seus locutores, esta prática servirá às lógicas e condicionamentos comuns, já bem estabelecidos sociocultural e politicamente no espaço acadêmico ou para além dele.

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