ISSN 1678-0701
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Artigos

No. 38 - 05/12/2011
EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: UM ESTUDO COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Diante dos desequilíbrios ambientais decorrentes das próprias atividades humanas, torna-se necessário que as discussões sobre educação ambiental evolua de modo a contribuir para uma educação pautada em princípios de sustentabilidade [...]

Revista Educação Ambiental em Ação 38

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: UM ESTUDO COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL

 

Jaqueline Guimarães Santos

Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Programa de Pós-Graduação em Administração – PROPAD

Mestranda em Administração

¹Endereço profissional: UFPE, Departamento de Ciências Administrativas

Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Universitário

50670-901 – Recife – PE. Telefone: (81) 21268368 Fax: (81) 21268870

jsantos.adm@gmail.com

 

Naudienne Maria da Silva Nascimento¹

Universidade Federal de Campina Grande – UFCG

Graduanda em Pedagodia

nalpinck@hotmail.com

 

Sandra Sereide Ferreira da Silva¹

Universidade Federal de Campina Grande – UFCG

Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais – PPGRN

Doutoranda em Recursos Naturais

sandrasereide@yahoo.com.br

 

Ângela Maria Cavalcanti Ramalho¹

Universidade Estadual da Paraíba – UEPB

Doutora em Recursos Naturais, Professora da UEPB

angelaramalho@oi.com.br

 

RESUMO

 

Diante dos desequilíbrios ambientais decorrentes das próprias atividades humanas, torna-se necessário que as discussões sobre educação ambiental evolua de modo a contribuir para uma educação pautada em princípios de sustentabilidade.  Assim sendo, é fundamental que as escolas adotem a educação ambiental como disciplina indispensável, de forma que os alunos tornem-se cidadãos mais conscientes no tocante as questões ambientais. Nesse sentido, o objetivo desse estudo é analisar como a Educação Ambiental pode auxiliar para a adoção de novas práticas de alunos de uma escola municipal localizada no Município de Cuité – PB. A pesquisa é caracterizada como observacional/exploratória, conduzida como um estudo de caso na Escola Estadual de Ensino Fundamental André Vidal de Negreiros, situada na cidade de Cuité/PB. Os dados foram coletados a partir da execução de um projeto compostos por 32 alunos. O desenvolvimento das atividades propostas adotou procedimentos que asseguraram aos participantes do projeto a função de mediadores no processo de conscientização e reflexão da educação ambiental, enfocando a importância da coleta seletiva como uma contribuição para a construção da bioconsciência, através de uma interação educativa, cujo propósito metodológico foi criar, revigorar, integrar e harmonizar as atitudes e valores da prática cotidiana quanto à importância da destinação final dos resíduos sólidos.

Palavras-chave: Educação Ambiental; Mudança Comportamental; Oficinas Didáticas.

 

1.    Introdução

 

O crescimento populacional e urbano associado à sociedade de consumo, à falta de educação ambiental e à ausência de políticas públicas que permitam uma coleta seletiva e o tratamento do lixo tem contribuído decisivamente para o agravamento de problemas sócio-ambientais. Neste contexto, a ocorrência de lixões, que se proliferam principalmente nas periferias dos centros urbanos, é resultante da falta de Educação Ambiental e do atendimento inadequado feito às populações, no que se referem aos serviços de coleta, tratamento e disposição final dos resíduos sólidos.

A sociedade de consumo em que vivemos tem como hábito extrair da natureza a matéria-prima e, depois de utilizada, descartá-la em lixões, caracterizando uma relação depredatória com o seu habitat. Assim, grande quantidade de produtos recicláveis que poderiam ser reaproveitados a partir dos resíduos, é inutilizada na sua forma de destino final. Isso implica em uma grande perda ambiental, devido ao potencial altamente poluidor do mau gerenciamento dos resíduos gerados, comprometendo a qualidade do ar, solo e, principalmente as águas superficiais e subterrâneas, além do desperdício de recursos, especialmente os não recicláveis, inviabilizando sua obtenção no futuro.

Nesta ótica, permite-se afirmar que o modo de vida da sociedade atual ainda está condicionado a uma produção exagerada de resíduos, que aliada à falta de cuidados no seu processo de gestão, tem contribuído para agravar os problemas sanitários e ambientais. É tanto lixo gerado que já falta espaço físico para colocar tantos resíduos, formando assim, enormes lixões a céu aberto, que na maioria dos municípios brasileiros estão localizados próximos às áreas urbanas. Dessa forma, a solução dos problemas ambientais tem sido considerada cada vez mais urgente para garantir o futuro da humanidade e depende da relação que se estabelece entre sociedade e natureza, tanto na dimensão coletiva quanto na individual.

No contexto escolar a prática da educação ambiental vem como alternativa para que os discente tenham maior conscientização sobre o problema que aflige toda a população. Para tanto foi criada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. 9.394 de 20 de dezembro de 1996 que para ser plenamente implantada e exercida segundo seus objetivos de inclusão, transversalidade, acesso igualitário e humanização do ensino nacional, se torna imperativa a mobilização da comunidade escolar e pedagógica em torno de projetos sócio-ambientais.

A Educação Ambiental (E.A.) é um ramo da educação cujo objetivo é a disseminação do conhecimento sobre o ambiente, a fim de ajudar à sua preservação e utilização sustentável dos seus recursos. É um processo permanente, no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, habilidades, experiências, valores e a determinação que os tornam capazes de agir, individual ou coletivamente, na busca de soluções para os problemas ambientais, presentes e futuros (RIGONAT, 2002). Conforme Rodrigues e Costa (2004), a educação ambiental apresenta-se como um elemento indispensável para a transformação da consciência ambiental e pode levar à mudança de valores e comportamentos.

Diante do exposto, trabalhar a Educação Ambiental no âmbito escolar, além de permear toda a prática educacional, na busca de uma ação reflexiva e crítica da realidade, também como tema transversal, possibilita a opção por diferentes situações desejadas, como responsabilidade, cooperação, solidariedade e respeito pela vida. Dentro de uma visão construtivista e interdisciplinar do conhecimento, a Educação Ambiental visa à consolidação da cidadania a partir de conteúdos vinculados ao cotidiano e aos interesses da maioria da população. Fica evidente, portanto, a importância de educar os cidadãos para que ajam de modo responsável e com sensibilidade, conservando o ambiente saudável no presente e para o futuro, modificando-se tanto interiormente, como pessoa, quanto nas suas relações com o ambiente.

Nesse sentido, o presente estudo tem por objetivo analisar como a Educação Ambiental pode auxiliar para a adoção de novas práticas de alunos de uma escola municipal localizada no Município de Cuité – PB. A pesquisa é caracterizada como observacional/exploratória, conduzida como um estudo de caso na Escola Estadual de Ensino Fundamental André Vidal de Negreiros, situada no Município de Cuité/PB.

Acredita-se que é função da escola propor práticas mais conscientes, mais reflexivas, mais úteis, mais motivadoras, em síntese, mais formativas. Evidentemente, a educação sozinha não é suficiente para mudar os rumos do planeta, mas, certamente é condição necessária para isso, uma vez que, a Educação Ambiental leva a mudança de comportamento pessoal, atitudes e valores de cidadania que podem ter importantes conseqüências sociais. 

 

2.    Referencial teórico

 

2.1  Desenvolvimento Sustentável

 

Nas décadas recentes, a questão ambiental vem despertando preocupação e crescente interesse social. Os últimos anos têm testemunhado o caráter problemático que reveste a relação entre a sociedade e o meio ambiente.

A questão ambiental, neste sentido, define, justamente, o conjunto de contradições resultantes das interações internas ao sistema social e deste com o meio envolvente. São situações marcadas pelo conflito, esgotamento e destrutividade que se expressam nos limites materiais, ao crescimento acentuado das desigualdades socioeconômicas intra e internacionais que alimentam e tornam crônicos os processos de exclusão social; no avanço do desemprego estrutural; na perda da biodiversidade e na contaminação crescente dos ecossistemas terrestres, entre outras.

Neste contexto, a questão ambiental revela o retrato de uma crise pluridimensional que aponta para a exaustão de um modelo de sociedade que produz, desproporcionalmente, mais problemas que soluções e em que as soluções propostas, por sua parcialidade, limitação e interesse, acabam por se constituir em novas fontes de problemas.  

Dessa forma, percebe-se da necessidade de um re-direcionamento no tipo de desenvolvimento tido pela sociedade atual a partir de princípios voltados para a sustentabilidade. Para Buarque (2008, p. 70) “a transição de um estilo insustentável para um sustentável deve enfrentar e redesenhar a rigidez e as restrições estruturais, que demandam tempo e iniciativas transformadoras da base da organização da sociedade e da economia”. Assim, umas das formas capaz de auxiliar para o redirecionamento de ações e práticas da sociedade para o desenvolvimento sustentável é por meio da educação para a sustentabilidade, que a princípio requer que todos consigam perceber o seu papel diante dessa realidade emergente, como uma forma de co-responsabilidade da situação, para assim contribuir de forma favorável para a sustentabilidade, uma vez que a sociedade é responsável pela ação de mudança.

 

2.2  Educação para a Sustentabilidade

  

  A Educação para a sustentabilidade/educação ambiental é a prática educacional que ocorre em sintonia com a vida em sociedade, que pode (e deveria) ser inserida sob diversos enfoques: social, econômico, político, cultural, artístico etc, não podendo ser considerada como uma prática estanque, uma vez que abrange diversas áreas. Desta forma também pode ser considerada como uma arte, no sentido de trabalhar com a criatividade no que tange procurar alternativas para envolver os indivíduos num processo de reeducação de valores, percepções e sentidos em relação à forma de ver e viver o mundo.

A educação ambiental, no Brasil, tornou-se lei em 27 de Abril de 1999 através da Lei N° 9.795 – Lei da Educação Ambiental, que em seu Art. 2° afirma: "A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal.

Nesta premissa, a Educação Ambiental é a ação educativa pela qual o educando têm a tomada de consciência de sua realidade global, do tipo de relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas derivados de ditas relações e suas causas profundas. Assim, pode assegurar que é um processo por meio do qual o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

De acordo com Carvalho, (1995, p. 61) a educação ambiental pode ser uma prática de ação política que interpela a sociedade, problematizando a degradação das condições ambientais e das condições de vida como processos intrinsecamente articulados. Neste sentido, os princípios da educação ambiental para sociedades sustentáveis têm o pensamento crítico, questionador e transformador da sociedade como elemento fundamental para formação de cidadãos com consciência local e planetária.

Assim, a Educação Ambiental deve envolver uma perspectiva holística em seu contexto social e histórico, enfocando a relação entre o ser humano, a natureza e o universo de forma única e globalizada, estimulando a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e justas capazes de facilitar a cooperação mútua nos processos de decisão, em todos os níveis e etapas, valorizando e respeitando a história cultural local, assim como promovendo o diálogo, a criação de espaços de discussão das temáticas sócio-ambientais.

Para se atingir esse objetivo associado ao sucesso esperado, deve-se vencer as seguintes etapas: despertar o interesse das pessoas no problema ambiental que se quer trabalhar, promover a mobilização social, transmitir informações, planejar ações e monitorar e avaliar os resultados.

Conseguinte este contexto, a Educação Ambiental na atualidade além de ser uma necessidade básica, deve ser uma prática que proporcione a superação da sociedade dominante, buscando construir uma mudança de comportamento da população e uma participação ativa na busca de superação dos problemas sociais, econômicos e ambientais de sua localidade.  

 

2.3  Os parâmetros curriculares nacionais e o ensino de ciências naturais

 

  Os Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1996) elaborados pelo Ministério de Educação (MEC), incluem a Educação Ambiental como tema a ser inserido transversalmente nas diversas áreas do conhecimento. Se constituindo dessa forma, nos instrumentos naturais de divulgação da Educação Ambiental nas escolas, ressaltando a necessidade da abordagem interdisciplinar e uma ampliação do significado do conteúdo escolar, sinalizando para a necessidade de busca de novos valores e atitudes no relacionamento com o meio em que vivemos.

Na ótica dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1997) a questão alerta para a necessidade de se promover mudanças efetivas que garantam a continuidade e a qualidade da vida em longo prazo. O fato de problematizar a destrutividade potencial da sociedade industrial e a infinidade dos recursos naturais traz à tona a fragilidade e a provisoridade do complexo vital, e nos remete a uma reflexão mais profunda e abrangente sobre o valor de nosso modelo civilizatório, despertando nossos sentidos e oportunidades de vida e mudança, na busca de encontrar respostas compatíveis com a magnitude do problema. Ao longo da história, o homem transformou-se pela modificação do meio ambiente, criou cultura, estabeleceu relações econômicas, modelos de comunicação com a natureza e com os outros.

Brasil (1997, p 33) afirma que é preciso refletir sobre como deve ser essas relações socioeconômicas e ambientais, para se tomar decisões adequadas a cada passo, na direção das metas desejadas por todos: o crescimento cultural, a qualidade de vida e o equilíbrio ambiental. Segundo os Parâmetros essa consciência já chegou à escola e muitas iniciativas têm sido desenvolvidas em torno desta questão por educadores de todo o País. Por estas razões, vê-se a importância de se incluir a temática do Meio Ambiente como tema transversal dos currículos escolares, permeando toda prática educacional.

Para Bizzo (1998) o aprender ciências tem se limitado a repetir o certo, a repetir palavras difíceis, a aprender os resultados esperados pelo professor, a reproduzir as perguntas científicas. Essa situação promove um ambiente “frio”, sem emoções, que distancia os sujeitos do processo de aprendizagem, pois inibe o interesse e a criatividade. Dessa forma, os educadores precisam o quanto antes reverter esta situação, buscando propostas interdisciplinares que visem melhorar o ensino de Ciências Naturais nas escolas.

Neste enfoque, o aprender ciências favorece a interação com a natureza, a investigação e a pesquisa dos fenômenos naturais, relacionando-os com a vida cotidiana. Assim, esta área do conhecimento abre um caminho para um aprender mais significativo e prazeroso.

Sobre essa premissa, sabe-se que o aluno é protagonista do seu processo de aprendizagem, portanto o professor deve realizar a mediação dos conhecimentos através de ações significativas, nas quais os mesmos sintam-se estimulados a buscar novas informações para a solução de problemas existentes.

 

2.4  Projetos de ensino aprendizagem: uma estratégia para se trabalhar Educação Ambiental

 

Os Projetos são estratégias de trabalho que favorecem a interdisciplinaridade e, muitas vezes, possibilitam o tratamento de Temas Transversais, que exige conhecimentos que são pautados em outras áreas. Além disso, essa estratégia auxilia no processo de ensino aprendizagem uma vez que, reúne os conhecimentos prévios dos alunos, incentiva a troca de idéias entre eles, suscita a dúvida, estimula a solução e traz a necessidade de obter novas informações, na busca de soluções. Cabendo ao professor adequar o projeto à faixa etária a qual se destinam.

Esse termo interdisciplinaridade está cada vez mais presente nos documentos oficiais e no vocabulário de professores e administradores escolares. Contudo, a construção de um trabalho genuinamente interdisciplinar na escola ainda encontra muitas dificuldades.

De acordo com Machado (2000), essas dificuldades ajudam a explicar resultados inconscientes nas tentativas de trabalho interdisciplinar, mesmo de docentes que se empenharam em realizar um estudo sério sobre o tema. Os docentes de Ensino Fundamental e Médio, muitas vezes, encontram dificuldades no desenvolvimento de projetos de caráter interdisciplinar em função de terem sido formadas dentro de uma visão positivista e fragmentadas do conhecimento.

Daí a importância de se trabalhar projetos dessa natureza, em que a educação ambiental como estratégia de ensino é um instrumento de capacitação e sensibilização para a temática ambiental, onde as atividades propostas se utilizam de elementos pedagógicos lúdicos e criativos, que provocam uma leitura da realidade sócio-ambiental.

Neste enfoque, nas fases iniciais do ensino de ciências naturais muitas são as ações que podem ser trabalhadas, dentre as quais merecem destaque: Implantação de coleta seletiva de lixo nas escolas, no condomínio, bairro, etc.; Implantação de Oficina de Reciclagem artesanal de Papel; Promoção de Oficinas de arte com material de sucata, desenhos, colagens, modelagens; Formação de brigadas ecológicas; Práticas de camping; Cultivo de hortas e plantas medicinais; Organização de clubinhos de ciências; Montagem de mini-museus científicos; Elaboração de cartilhas e murais ecológicos; Promoção de gincanas, seminários e concursos (redação, pintura, escultura, poesia); Produção de material audiovisual (jornal, vídeos, músicas, etc.). Todas podem ser aplicadas nas escolas tendo por finalidade maior contribuir para a formação de uma consciência ambiental crítica, gerando dessa maneira, uma mudança de comportamento e de atitude.

Para tanto, o sucesso de uma estratégia ou de um programa de educação ambiental consubstancia-se na efetiva capacidade de promover simultaneamente, o desenvolvimento de conhecimento, de atitudes e de habilidades necessárias à preservação e melhoria da qualidade ambiental, podendo se utilizado como laboratório, o metabolismo urbano e seus recursos naturais e físicos, iniciando pela escola, expandindo-se pela circunvizinhança e sucessivamente até a cidade, a região, o país, o continente e o planeta.  

 

2.5  Lixo urbano: efeitos para o meio ambiente e para a saúde

 

A questão ambiental, no Brasil e no mundo, tornou-se um tema amplamente debatido em todos os meios, em vista da crescente degradação ambiental existente atualmente e, pelo fato de que um ambiente em equilíbrio reflete na qualidade de vida da população. Nesse contexto, surge a questão dos resíduos sólidos (lixo) como uma das mais sérias ameaças para as pessoas.

Esses enormes depósitos de lixo acarretam problemas sérios causando disseminação de doenças, a contaminação do solo e de águas subterrâneas pelo chorume, a poluição do ar pelo gás metano (gerado na decomposição da matéria orgânica presente no lixo), a falta de espaço para o armazenamento, entre outros.

As principais causas da poluição do solo decorrem do acúmulo de resíduo sólido, como embalagens de plástico, papel e metal, e de produtos químicos, como fertilizantes, pesticidas e herbicidas. O material sólido do lixo demora muito tempo para desaparecer no ambiente. O vidro, por exemplo, leva em torno de cinco mil anos para se decompor, enquanto determinados tipos de plástico nunca se decompõem, pois são resistentes ao processo de biodegradação promovido pelos microorganismos.

O lixo orgânico, no processo de decomposição, gera um líquido escuro, turvo e malcheiroso altamente poluente denominado de chorume (ele é dez vezes mais poluente que o esgoto doméstico). Este líquido tem a capacidade de dissolver tintas, resinas e outras substâncias químicas de alta toxidade contaminando o solo, impedindo o desenvolvimento das plantas.

O lixo é também o ambiente perfeito para a proliferação de macro - vetores  e micro-vetores. Fazem parte do grupo dos macro-vetores as moscas, baratas, ratos, porcos, cachorros, urubus. O grupo dos micro-vetores como as bactérias, os fungos e vírus são considerados de grande importância epidemiológica por serem patogênicos e, conseqüentemente, nocivos ao homem.

Estes vetores são causadores de uma série de moléstias como diarréias infecciosas, amebíase, febre tifóide, malária, febre amarela, cólera, tifo, leptospirose, males respiratórios, infecções e alergias, encontrando no lixo um dos grandes responsáveis pela sua disseminação.

 

3.    Aspectos Metodológicos

 

Este estudo tem por base a descrição das experiências vivenciadas pelos alunos e os efeitos que o desenvolvimento de um projeto pedagógico pôde trazer para alunos do ensino fundamental de uma escola municipal de Cuite/PB. O período de aplicação do projeto intitulado “Reciclando com arte e gerando idéias” ocorreu no período de 05 de março ao dia 30 de novembro de 2010 (Quadro 1). Desenvolvido em uma turma do 4º ano, com alunos de faixa etária entre 08 e 09 anos de idade. A turma é composta por 32 alunos, que apresenta alguns hábitos indisciplinares, como jogar lixo na sala de aula e no pátio da escola, dentre outros.

 

CRONOGRAMA DO PROJETO “RECICLANDO COM ARTE E GERANDO IDÉIAS”

Período

Descrição da atividade

Atores envolvidos

Março – Maio

ü  Discussões iniciais (Homem X Meio ambiente)

ü  Excursões extraclasses

Alunos e professores

Maio – Junho

ü  Realização de campanhas na escola

ü  Realização de coletas seletivas

ü  Criação do espaço “Recicla Vieira”

Alunos, professores e pais

Julho – Agosto

ü  Realização da primeira oficina de brinquedos

Alunos e professores

Agosto – Setembro

ü  Realização da segunda oficina de fantoches

Alunos, professores, pais e comunidade escolar

Setembro – Outubro

ü  Realização da terceira oficina Reciclagem de papel e confecção de cartões

Outubro – Novembro

ü  Finalização do projeto

ü  Realização de Feira de Ciências

ü  II Semana Cultural

ü  Distribuição da 1ª edição do Jornal “Reciclarte”

Comunidade escolar e comunidade local

Quadro 1: Cronograma de atividades do Projeto “Reciclando com Arte e Gerando Idéias”

Fonte: Elaboração Própria

 

Para dar início ao projeto foram feitos estudos sobre a lei 9795/99 que institui a Política Nacional de Educação Ambiental; os direitos e deveres do cidadão, as regras básicas da cidadania; estudo dos artigos 3º, 5º e 6º da Constituição Brasileira e saneamento básico que possibilitaram os alunos refletirem sobre os mesmos. Após essas atividades tornou-se visível a preocupação das crianças em conservar o meio ambiente.

Foram realizadas visitas a vários locais do Município com o objetivo de mostrar para os alunos a situação que vivia e que nem se davam conta, esta experiência serviu para eles “sentirem na pele” que o descuido com o meio ambiente pode resultar em graves conseqüências para todos. Além disso, foram desenvolvidas campanhas de material reciclável, oficinas na escola, dentre outras ações que foram importantes para um momento de socialização entre escola, alunos, pais e comunidade local.

 

4.    Resultados Alcançados com o Projeto

  

Inicialmente foram feitos passeios ao olho D’água da Bica, ao Campus de Cuité da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG e ao lixão, todos situados no Município de Cuité-PB. Essas visitas iniciais do projeto foram propositais com o objetivo de mostrar para os alunos a realidade que eles viviam no Município e às vezes nem se davam conta. Nesse momentos oportunos, eles evidenciaram a quantidade de lixo que as pessoas jogavam no meio ambiente, assim como constataram que algumas famílias tiravam do lixo o seu sustento, foi um momento em que os alunos tiveram o contato direto com o lixão, podendo enxergar de fato a situação que preocupa as entidades do Município. No momento eles entrevistaram alguns catadores, que posteriormente serviram para elaboração de trabalhos posteriores, como por exemplo, foram feitas na escola campanhas relacionadas ao tema “lixo e reciclagem”.

 Os alunos realizaram uma coleta seletiva dentro da escola. Os participantes munidos de sacolas plásticas, vassouras e luvas iniciaram a retirada de garrafas PET, sacos de pipoca, latinhas de refrigerante, papéis e até sobras de comida da merenda escolar, tudo pela melhoria da qualidade de vida. Durante todo o projeto eram trazidos pelos alunos, professores e toda comunidade escolar, materiais recicláveis de suas residências, incentivando a reciclagem de materiais, o reaproveitamento. Os materiais eram levados ao Recicla Vieira, local onde os materiais eram selecionados, pesados e vendidos. Os alunos observavam e faziam suas anotações, com os dados obtidos construíam problemas, textos informativos, gráficos estatísticos, etc. Era perceptível a felicidade que as crianças sentiam ao realizar as atividades.

Durante a aplicação do projeto foram realizadas três oficinas (oficinas de brinquedos, de fantoches e de reciclagem de papel e cartonagem), de forma interdisciplinar e contextualizada. O desenvolvimento das atividades foi flexível, até mesmo porque os alunos realizaram ações tanto individuais, quanto coletivas. Cada oficina proposta possuía peculiaridades que serão demonstradas abaixo.

No desenvolvimento da primeira oficina (de brinquedos) os alunos utilizaram materiais recicláveis, para que eles pudessem analisar os materiais não utilizáveis e disponíveis, em seu meio ambiente. Essa atividade levou as crianças a perceber que o lixo pode ser amplamente aproveitado em sua integra.

A troca de materiais na construção dos brinquedos para seu próprio consumo despertou nas crianças que compartilhar faz parte da vida. Nosso propósito era favorecer a criação de seus próprios brinquedos a partir de materiais reutilizáveis de baixo custo, propiciando as crianças o desenvolvimento da imaginação. Além disso, essa atividade possibilitou vivenciarem na prática formas de aproveitamento do lixo.

No desenvolvimento da segunda oficina (de fantoches) as crianças sentiam-se fascinadas com a idéia de construírem seus próprios fantoches. Primeiro foram formados grupos de cinco para elaborar histórias coletivamente, com o objetivo de montar espetáculos relacionados ao tema “lixo e reciclagem”. Construíram textos baseados em contos infantis estimulando os alunos a pensarem que tipo de bonecos (fantoches) ia confeccionar.

Nessa atividade foi trabalhada a expressão plástica, a coragem, a alegria, a comunicação, expressão oral, a sociabilidade e a criatividade infantil. Depois de tudo pronto, apresentaram a peça teatral para as mães e para outras turmas da escola.

Na terceira oficina de “Reciclagem de papel e confecção de cartões” antes de iniciar os experimentos, foram realizados jogos de aprendizagem “técnica” de brinquedos e dobradura de papel, levando os alunos a construírem vínculos afetivos. Foram lidos em sala de aula textos informativos sobre os impactos que o desperdício de papel causa ao meio ambiente, e que a reutilização deste resíduo, bem como de outros, diz respeito a uma postura que vai ao encontro de uma visão de sustentabilidade dos recursos naturais.

Na realização da oficina os alunos reutilizaram papéis de caderno e de ofício. No primeiro momento o experimento não deu muito certo, pois deixamos o papel secar na peneira, dificultando a retirada do mesmo. Na outra aula repetimos a experiência com mais cuidado, passo a passo. Foi um sucesso. Depois do papel reciclado foram confeccionados cartões artesanais, porta retratos, etc. Buscando formas de expressão humana e desenvolvimento de uma consciência ambiental.

É importante destacar que os conteúdos das diversas áreas do conhecimento foram trabalhados em sala paralelamente as atividades práticas do projeto. Durante todo o período de desenvolvimento do projeto percebeu-se que as crianças em nenhum momento deixaram de fazer as demais atividades e que os pais puderam acompanhar todo o projeto, pois era comum ouvir comentário dos mesmos a cerca dos trabalhos desenvolvidos e o quanto as crianças tinham mudado, chegando a cobrar deles atitudes corretas em relação à separação e reaproveitamento dos resíduos sólidos. Levando até a vender alguns desses materiais ao Recicla Vieira. Eles também se preocupavam em manter a sala de aula limpa, fiscalizando assim uns aos outros e reclamando quando alguém não tinha atitude cidadã. Faziam questão de informar sobre o que haviam assistido na TV sobre os impactos ambientais e as doenças causadas pelo lixo.

A culminância do projeto deu-se em dois momentos. O primeiro foi socializar as atividades desenvolvidas para a comunidade escolar. A outra foi apresentar as oficinas desenvolvidas no projeto para toda comunidade Cuiteense, através de uma Feira de Ciências realizada na E. E. de Ensino Fundamental e Médio Orlando Venâncio dos Santos – CUITÈ – PB. Na II Semana Cultural de 12 a 16 de novembro de 2009. Durante o evento foram distribuídos a 1ª edição do Jornal “Reciclarte” elaborados por eles.

Percebemos como aspecto mais relevante do desenvolvimento do projeto na Escola Estadual de Ensino Fundamental André Vidal de Negreiros, o crescente envolvimento dos alunos, dos pais e de todo corpo docente e administrativo da escola durante toda a execução do projeto. Principalmente quando presenciávamos a mudança de atitude dos alunos em relação à geração e à disposição dos resíduos sólidos no ambiente. Os resultados do presente trabalho, demonstram a importância da Educação Ambiental como instrumento de mudança e de relação do ser humano com a natureza.

 

5.    Considerações Finais

 

  A Educação Ambiental é um procedimento participativo, no qual o aluno adota a função de componente essencial do método de ensino/aprendizagem almejado, participando ativamente no diagnóstico dos problemas ambientais e busca de soluções, sendo preparado como agente transformador, através da ampliação de capacidade e desenvolvimento de atitudes, por meio de um comportamento ético, condizentes ao exercício da cidadania.

Neste enfoque, a Educação Ambiental deve buscar valores que conduzam a uma coexistência harmoniosa com o ambiente e as demais espécies que habitam o planeta, acessando o aluno a ponderar criticamente o princípio antropocêntrico, que tem instigado à destruição inconseqüente dos recursos naturais e de várias espécies.

Dessa forma, é fundamental analisar que a natureza não é fonte inesgotável de recursos, suas reservas são finitas e devem ser utilizadas de maneira racional, evitando o desperdício e considerando a reciclagem como processo vital, e a escola é o ambiente social e o alvo onde o aluno dará continuação ao seu método de socialização. O que nela se faz se diz e se valoriza representa um modelo daquilo que a sociedade almeja e consente. Comportamentos ambientalmente corretos devem ser aprendidos na prática, no cotidiano da vida escolar, contribuindo para a formação de cidadãos responsáveis.

Nesse sentido, é essencial que cada aluno desenvolva as suas potencialidades e adote posturas pessoais e comportamentos sociais construtivos, colaborando para a construção de uma sociedade socialmente justa, em um ambiente saudável.

Assim sendo, a Educação Ambiental deve ser tratada de maneira sistemática e transversal, em todos os níveis de ensino, garantindo a apresentação da dimensão ambiental de forma interdisciplinar nos currículos das diferentes disciplinas e das atividades escolares.

Conclui-se que a Educação Ambiental deve ser um componente essencial e permanente da educação nacional em todos os níveis e modalidades, tanto do processo formal como não formal, assim como o seu caráter humanista, participativo, democrático, plural que permitirá entender a complexidade do meio ambiente, que supera os limites da natureza e envolvem a inter-relação de aspectos econômicos, políticos, culturais, éticos e sociais da dinâmica social, no intuito de construir uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios de liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade.

 

Referências

 

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